Karim Aïnouz fará parte do júri oficial da Berlinale; ‘honra sem tamanho’, diz

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Por MYRNA SILVEIRA BRANDÃO

Cineasta Karim Aïnouz

A 72º edição do Festival de Berlim acontecerá de quinta (10) a quarta (16) no formato presencial, cercado de toda a segurança e medidas sanitárias em face da pandemia.

Como já divulgado, o cineasta brasileiro Karim Aïnouz teve seu nome confirmado como um dos integrantes do júri da Mostra Oficial, que escolherá o Ursos de Ouro e o Urso de Prata e será presidido pelo diretor indiano radicado nos EUA, M. Night Shyamalan.

Com a indicação, o cineasta cearense adicionou mais um item à sua brilhante carreira na Berlinale, onde já esteve em várias outras funções: em 2014, concorreu ao Urso de Ouro com “Praia do Futuro” e, no mesmo ano, apresentou “Catedrais da Cultura” na Berlinale Special, um filme coletivo dirigido por seis cineastas; em 2018, ganhou o Prêmio da Anistia Internacional, com “Aeroporto Central THF”; e em 2020, integrou a Panorama, principal paralela do evento, com “Nardjes A.”.

Além de Shyamalan e Aïnouz, os demais integrantes do Júri Internacional são: a diretora Anne Zohra Berrached (Alemanha), o produtor Saïd Ben Saïd (França / Tunísia), a dramaturga Tsitsi Dangarembga (Zimbabwe), o cineasta Ryûsuke Hamaguchi (Japão) e a atriz Connie Nielsen (Dinamarca / EUA).

Em entrevista exclusiva ao JORNAL DO BRASIL, Aïnouz destacou o significado de ter sido indicado para o júri oficial da Berlinale e as mudanças trazidas pela pandemia para o cinema.

 

JORNAL DO BRASIL - Fale um pouco sobre o significado de estar no júri da Mostra Oficial de Berlim, certamente o maior festival cinematográfico do mundo.

KARIM AÏNOUZ - Estar no júri da Mostra Oficial de cinema de Berlim é uma honra sem tamanho. Pode parecer bem clichê, mas quando eu olho para trás passa um filme bem maluco na minha cabeça. Tem o lado muito bacana desse convite significar para mim um reconhecimento de mais de 30 anos de entrega irrestrita ao meu ofício que é fazer cinema. Estou honrado e muito feliz.

 

Antes dessa conquista, você já tinha participado da Mostra Oficial concorrendo ao Urso de Ouro, da Berlinale Special e da prestigiada Panorama. Qual o diferencial agora, o que muda?

Acho que tem uma diferença qualitativa. Quando a gente vai apresentar um filme, ficamos expostos mostrando o resultado de anos de trabalho em um projeto. Para o júri, a relação é diferente, vamos julgar com a nossa bagagem o sonho de alguém. São responsabilidades igualmente gigantes, mas de natureza diferente. Quase como se uma abrisse o caminho para a outra, acho que com certeza, foi muito eu ter estado do outro lado que me habilitou para ter recebido o convite de compor o júri hoje.

 

O que você acha que pode mudar no cinema pós-pandemia?

Eu não sei se existe um pós-pandemia e, se existir, eu realmente não sei o que isso significa. O mundo foi completamente desestabilizado por essa experiência e para esse ‘trauma’ virar passado demora algumas gerações. Agora, sobre o cinema, esse já mudou e um exemplo bem rápido – sem entrar em coisas mais complexas como estética, narrativa... etc. – é a produção. A pandemia mudou consistentemente a produção cinematográfica. Hoje, se observarmos os créditos dos filmes, não é raro a gente ver o núcleo de prevenção e regulamentação da covid e o orçamento para fazer um filme muda junto com isso. A pandemia inoculou uma camada bem burocrática nas produções que já eram (e tinham que ser burocráticas). Então, nesse sentido, no sentido mais pragmático, o cinema já mudou completamente.