Pag. 34 - Comédia dos sexos
Desenvolvida pelos roteiristas Marcelo Saback e Paulo Cursino, a partir do argumento de Santucci, a história de De pernas pro ar descreve as desventuras de Alice (Ingrid), uma publicitária obcecada pelo trabalho, que não tem tempo para o marido (Bruno Garcia) ou o filho (João Fernandes). Quando a crise conjugal e a profissional batem à sua porta, a personagem vem a conhecer Marcela (Maria Paula), vizinha e proprietária de um sex shop, do qual vira sócia e principal entusiasta de seus artigos. Gênero, abordagem, tema e composição de elenco sugerem um filme com vocação popular, e o tamanho do circuito que o abriga – são 300 salas em todo o país – confirmam isso. Mas o diretor explica que não se rendeu às regras de mercado.
– De forma alguma me senti refém dele – garante Santucci, que começou na carreira como assistente de montagem das produções americanas Código de honra (1992), de Robert Mandel, e Lendas da paixão (1994), de Edward Zwick. – Passei por uma série de restrições típicas de um filme caro como esse, mas pude trabalhar a ideia a ponto de sentir imenso respeito pelo projeto. Tive margem para desenvolvê-lo como queria, desde a indicação dos roteiristas, até participar da escolha dos atores, sempre trocando ideias com o Bruno (Weiner) e a Mariza (Leão). O diretor desfaz também a impressão, vendida pela imprensa, de que filmes como o seu estejam tentando devolver o erotismo ao cinema brasileiro. Até porque em De pernas para o ar fala-se muito a respeito de sexo, mas mostra-se pouco – ou nada.
– O filme tem um componente comportamental muito forte – avisa Santucci. – Além de entrevistar a Érica (Rambalde Purcino), pesquisamos o mercado dos apetrechos eróticos, que está em franca ascendência, insuflado por mulheres de várias faixas etárias, e acrescentamos a problemática da mulher multitarefa, que se julga moderna por estar conectada com a parafernália virtual mas que dança no casamento. Quem quer fazer tudo ao mesmo tempo acaba não fazendo nada muito bem. O filme tem esse diálogo com o real e é muito atual.
Com De pernas pro ar na praça, Santucci pretende concentrar as energias no lançamento de Alucinados , que já chama de “filho bastardo”. En quanto isso não acontece, anda à cata de um novo projeto pessoal que possa sensibilizar distribuidores, produtores e, principalmente, as comissões de seleção de editais de cinema.
– Caso contrário, vou seguir o exemplo de (Francis Ford) Coppola, que fez Tetro , um filme ultraindependente, livre e autoral, só para não me aborrecer mais com o Estado – propõe o autor de Bellini e a esfinge (2002).
