Pag. 74 - Podemos crescer mais? - Retrospectiva 2010

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O ano de 2011 deve ser um ano de plantio e não de colheita. A política monetária deve buscar reduzir a taxa de inflação O Brasil deve fechar o ano de 2010 com um “crescimento chinês”, em torno de 7,6% no ano. Porém, este elevado índice é pontual e não significa que o Brasil entrou em um regime de aceleração parecido com o vigente na China. Na verdade, este número elevado em 2010 sinaliza que a taxa anual do produto potencial brasileiro deve ser de 4 %.

O crescimento de 7,6% ao ano é obviamente conjuntural. A crise mundial atingiu a economia brasileira no último trimestre de 2008 e seus efeitos continuaram no primeiros 90 dias de 2009, com uma breve recessão que reduziu o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) para 77,9 em fevereiro de 2009, contra 86,7 em junho de 2008. Com níveis de NUCI baixos e desemprego dos fatores de produção, a economia brasileira se recuperou gradativamente e fechou o ano de 2009 com um índice nega tivo de 0,6%. Logo, a média do crescimento de -0,6% em 2009 com o de 7,7% em 2010 sinaliza que o produto potencial da economia brasileira situa-se na faixa de 4%.

Neste sentido, o elevado patamar de 2010 não deve se repetir em 2011, visto que esse foi fruto de uma combinação de eventos: elevada capacidade ociosa da economia brasileira, em virtude do impacto da crise; política monetária mais frouxa e política fiscal expansionista devido ao ciclo eleitoral.

Para o ano de 2011, não existe capacidade ociosa nem desemprego de fatores, a política monetária deve ser mais apertada por conta das pressões inflacionárias (a inflação encontra-se acima da meta de 4,5% a.a.), e a política fiscal deve ser mais austera. Quais os desafios que a economia brasileira terá de enfrentar em 2011 para manter o crescimento ou aumentar o produto potencial? Não há dúvidas que a consolidação do tripé macroeconômico, composto por câmbio flexível, sistema de metas de infla ção e superávit primário foi fundamental para que o país entrasse em um período de avanço econômico relativamente mais acelerado que nos anos anteriores. Entretanto, para poder incrementar este crescimento anual na casa dos 4%, o Brasil necessita enfrentar alguns desafios: a forte apreciação cambial recente, a constante elevação dos gastos do governo e a baixa qualidade da mão-de-obra nacional.

O fortalecimento do Real ocorrido nos últimos anos é fruto de grandes mudanças nos fundamentos da taxa de câmbio real brasileira. O governo deveria atuar para eliminar os efeitos monetários (nominais) e atenuar os efeitos temporários sobre a taxa de câmbio. Entretanto, apesar de a distinção dos choques entre reais/nominais e per manentes/transitórios ser fundamental para que o governo atue sobre o câmbio sem gerar distorções, a identificação das características dos choques é extremamente difícil.

O segundo desafio que devemos enfrentar é o constante aumento dos gastos públicos, que contribui para a baixa taxa de poupança. Esta faz com que elevações no investimento, essenciais para a ampliação do produto potencial, tenham de ser financiadas com poupança externa, o que aprecia a taxa de câmbio real de equilíbrio da economia. A elevação da poupança é fundamental.

Logo, a adoção de uma política fiscal agressivamente austera ajuda a resolver ambos os problemas acima expostos, pois deprecia a taxa de câmbio real e, ao mesmo tempo, eleva a taxa de poupança, o que estimula o investimento e ajuda na elevação da taxa de crescimento do produto potencial.

Por último, devemos nos preocupar com a baixa qualidade média da mão-de-obra nacional. A descoberta do pré-sal, associada aos ganhos nos termos de troca, vai levar a uma taxa de câmbio mais apreciada no futuro. Esta vai deslocar a economia em direção ao setor de serviços, intensivo em mão-de-obra. A qualificação desta é uma questão essencial para a prestação de serviços de qualidade (alto valor agregado) em um mundo globalizado. Logo, uma melhor qualificação do material humano nacional vai permitir uma elevação da produtividade do setor.

Desta forma, o ano de 2011 deve ser um ano de plantio, e não de colheita. A política monetária deve buscar reduzir a taxa de inflação com uma taxa de juros mais elevada enquanto que a política fiscal deve buscar um maior equilíbrio das contas do governo, que eleve a poupança e permita uma taxa de câmbio real mais depreciada. Além disso, espera-se para os próximos anos uma política que aumente a qualidade da mão-de-obra nacional. A conjunção das políticas acima deve elevar a taxa de crescimento do produto potencial da economia brasileira.