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Confúcio, utopia e as eleições

Por Fernando Peregrino*

Em tempo de crise, escândalos e eleições, vale visitar o passado e saber para onde caminhamos como consequências das falhas de sucessivos governos.

Há 2.500 anos, um discípulo do sábio chinês Confúcio lhe perguntou quais eram as três coisas para se ter um bom governo. O sábio lhe respondeu: alimentos, armas e confiança. Ao que o discípulo lhe indagou: se o governante tivesse que abrir mão de uma delas ? Armas, respondeu. E a segunda? Alimentos. O discípulo, retrucou:  mas sem alimentos o povo morreria! O sábio, respondeu: morreria, mas esse é o destino inexorável do ser humano. Porém um povo sem confiança é um povo perdido!

Se esse pensamento fosse conhecido pelos atuais líderes e políticos do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil, as pesquisas não estariam revelando que 60% dos brasileiros não sabem em quem votar ou vão anular o voto em outubro (JB, 03/08/2018). De fato, tudo indica que o povo está desapontado e perdido. Afinal, na democracia, que saída há fora da eleição para escolha dos governantes senão pela escolha popular?

Desse modo, sem confiança nos governantes e nos líderes políticos, o que esperar do comportamento do eleitor no processo eleitoral?

Agrava esse quadro o cacoete dos candidatos em prometer sem pensar na capacidade de cumprir. Um caso clássico da literatura de gestão pública, “Implementation” (1984), de dois autores, Pressman e Wildasky, nos fala da distância entre propor uma política pública, como são os discursos da campanha, e a transformação dessas em realidade. Observem este trecho: “... a visão do topo é hilariante, separados dos problemas da implementação, os líderes do governo têm grandes pensamentos e ideais juntos. Mas têm dificuldade em imaginar a sequência de eventos que suas ideias precisam para serem implementadas. Outros homens, eles acreditam, irão caminhar sobre a estrada uma vez que eles tenham iluminado o caminho. Alguns funcionários perguntarão se existe mais do que conexão retórica entre a palavra e a realidade...”.

A crise política e o desespero e autopreservação têm elevado a taxa de descumprimento de promessas, pois no calor do processo, os políticos abusam da retórica para conquistar o voto, deixando de lado a viabilidade de seu cumprimento.

São verdades como essas que pairam sobre o processo eleitoral. Há um grande déficit de partida. Déficit de confiança e incapacidade de realizar suas promessas. Um alimentando o outro. E o que fazer?

Falar a verdade ao povo! Reconhecer erros. Não vender ilusões, mas promover sonhos! Sonhos como o da utopia, definida pelo premiado escritor, Eduardo Galeano. Ao ser perguntado por uma aluna sobre o que é utopia, lhe respondeu: “É como andar 20 passos em direção ao horizonte e,... ver o horizonte recuar 20 passos”. A aluna, perplexa, lhe indagou para que serviria, então, a utopia? “Serve para andarmos para frente” disse o escritor.

Quando retomaremos a utopia de andar para frente?

* Doutor em Engenharia pela Coppe/UFRJ; presidente do Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica