Coluna da Segunda - O picolé de chuchu

Por OCTÁVIO COSTA, octavio.costa@jb.com.br

As convenções terminaram. Faltam apenas alguns pequenos ajustes, mas a disputa sucessória, agora, tem todos os seus principais personagens.  Pelas últimas pesquisas,  pouca coisa mudou nos últimos meses. O ex-presidente Lula, mesmo preso há 120 dias, mantém a liderança, por larga margem. Detém em torno de 30% das intenções de votos, enquanto o deputado Jair Bolsonaro, do PSL, sustenta a segunda colocação, também com boa distância em relação aos demais competidores, a saber,  Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmim (PSDB).  Sem Lula na lista de candidatos, Bolsonaro toma a frente, com algo entre 17% e 20%, seguido da persistente Marina, que enfrenta sua terceira tentativa de chegar à Presidência da República. Depois, aparecem embolados Ciro e Alckmim. Esse é o quadro atual, que pouco deve se alterar até o início da propaganda gratuita, no dia 31 de agosto. 

Muitos analistas afirmam que o horário gratuito, desta vez, não exercerá grande influência na decisão dos eleitores. Dizem que tudo vai se resolver nas mídias sociais, no facebook e no twitter. Quem estiver mais sintonizado com os tempos modernos levará vantagem, graças à velocidade e ao poder de propagação da internet. Desse ponto de vista, Bolsonaro, por exemplo, não sofrerá grande prejuízo pelo fato de ter ínfimos sete segundos de exposição na TV. O que importa é o alarde provocado por seus milhares de seguidores. Marina, outra candidata com tempo exíguo, não só desfruta do recall das eleições anteriores, como também tem sabido tirar proveito das novas mídias. Além disso, ganhou o reforço do PV, sempre muito criativo em suas mensagens eleitorais. 

Sobre o PT, é bom aguardar o andar da carruagem.  No momento, há grande incerteza quanto aos rumos que o partido de Lula vai seguir. E qualquer avaliação seria uma aposta no escuro.  Quem será o cabeça de chapa? E o vice? Fala-se até na possibilidade, por mais distante que seja, de um acordo com o PDT de Ciro Gomes.  Ou seja, depois de jogar uma pá de cal na sonhada aliança do ex-governador do Ceará com o PSB, Lula ofereceria a Ciro uma espécie de compensação: o convite para ser companheiro de chapa do PT.  Com seu conhecido pavio curto, o pedetista descartou de pronto essa hipótese. “O que a Gleisi diz de manhã não serve de tarde.  Ela já sabe que não serei candidato a vice”, disse, em entrevista em Belo Horizonte. Tudo indica que Ciro queimou as caravelas em relação ao PT e ele mesmo admite que está ficando isolado na corrida ao Planalto. Com meio minuto na TV e no rádio, só contará com a estrutura modesta do PDT. 

Quem mais surpreendeu na reta de chegada foi, sem dúvida, o tucano Geraldo Alckmim. Com movimentos ousados, ele firmou aliança ampla com o Centrão, que vai lhe dar direito a quase 6 minutos de exposição, a metade do horário eleitoral. Também surpreendeu ao convidar a senadora Ana Amélia (PP-RS) para vice, quando todos esperavam que escolhesse um político nordestino. A decisão é arriscada, mas parece que Alckmim concluiu que não tem nada a ganhar no Nordeste, pelo menos no primeiro turno. Preferiu concentrar as forças no Sudeste e no Sul e, assim, garantir sua passagem para o segundo turno. A senadora, ligada aos ruralistas e outros grupos conservadores, pode invadir redutos de Bolsonaro no Sul, ainda não consolidados. Se conseguir crescer para além dos atuais 7% ou  8%, Alckmim passaria a se apresentar como voto útil diante dos simpatizantes do senador Álvaro Dias, do Podemos.  Afinal, Dias pertencia ao ninho tucano e herdou votos de eleitores do Paraná e Santa Catarina decepcionados com Aécio Neves, em quem confiaram em 2014. Se concluírem que Alckmim é opção real, podem voltar à nave mãe. 

Por mais que se diga que o latifúndio no horário gratuito não é garantia de boa votação, não dá para acreditar que Alckmim e seu núcleo de assessores vão desperdiçar o trunfo que têm em mãos. Não se está falando de um marinheiro de primeira viagem. Ao contrário, Geraldo Alckmim foi governador de São Paulo por quatro vezes, a primeira cumprindo mandato tampão de Mário Covas e as outras três conquistadas nas urnas. Sabe-se que ele é um político frio, sem carisma, e que, por isso, ganhou o apelido de picolé de chuchu. Mas é bom abrir o olho. O picolé de chuchu está agressivo como nunca.