Coluna da Segunda - A aposta radical de Lula

Por OCTÁVIO COSTA, octavio.costa@jb.com.br

O tempo passa e fica cada vez mais claro que a Justiça Eleitoral deve negar o registro da candidatura do ex-presidente Lula à Presidência da República. Não vai fazê-lo porque o líder petista está preso, pois este fato não impede ninguém de concorrer a eleições quando ainda há expectativa de sucesso em recursos em tramitação. O TSE, ao que tudo indica, vai se basear na Lei da Ficha Limpa, que impede a candidatura de condenados em segunda instância. São sete ministros naquela Corte e vários deles, inclusive o atual presidente, Luiz Fux, que já anteciparam o voto contrário aos interesses de Lula. Para agravar a situação do ex-presidente, mesmo que o Tribunal não venha a tomar a decisão por iniciativa própria, de ofício, será provocado pelo Ministério Público. É o que se depreende da orientação da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, aos seus colegas no sentido de que peçam a impugnação de todos os políticos que tenham ficha suja. 

São muito reduzidas as chances de o nome de Lula constar na urna eletrônica. Mas o ex-presidente está disposto a levar sua luta ao limite do possível. Joga todas suas fichas contra a banca. Dizem fontes do PT que ele pretende esticar a candidatura até o dia 15 de setembro, prazo limite para que o TSE decida sobre a impugnação de seu registro. Criaria, assim, uma situação extremamente constrangedora para a Justiça Eleitoral. Imagine-se a confusão: teriam os eminentes ministros a coragem de tirar do páreo, a menos de um mês da eleição, o primeiro colocado nas pesquisas e também o favorito nas simulações de segundo turno? Lula acredita que não. E também acredita que, se sua cassação for confirmada, será criado um conflito político de graves proporções. Ontem, em entrevista ao JB, o líder do MST, João Pedro Stédile, também afirmou que, sem Lula na disputa, “ninguém sabe no que vai dar o país”. 

Na mesma linha, um advogado que visitou o ex-presidente em Curitiba declarou que jamais ouviu dele comentários sobre seus possíveis substitutos. Portanto, é tudo ou nada. E se alguém acha que, em meados de setembro, não haverá mais tempo para trabalhar um nome alternativo, é bom ter em mente que a estratégia pode ser exatamente essa. Ou seja, em sinal de protesto pela perseguição da Justiça, a decisão é deixar o PT fora da disputa pelo Palácio do Planalto. Assim, a eleição, qualquer que seja seu resultado, ficará com a pecha da ilegitimidade, e Lula conseguirá firmar aqui e no exterior a imagem de mártir político, a exemplo de Nelson Mandela. 

A última palavra no PT, como se sabe, pertence a Lula. Mas cabe ressaltar que algumas vozes do partido não concordam com uma aposta tão radical. Consideram arriscado o PT chegar à boca da urna sem oferecer opções ao eleitor. Temem pelo futuro da legenda que nasceu nos anos 80. Defendem a negociação de alianças com outros partidos de esquerda e também sugerem nomes que poderiam ser lançados no lugar de Lula. Uma das vozes à frente dessa corrente é a do ex-ministro José Dirceu. Em liberdade graças a habeas corpus concedido pelo ministro Dias Toffoli, Dirceu está percorrendo o país e fazendo o que mais gosta de fazer: articulação política. Nos encontros com militantes, ele se mostra frontalmente contrário à estratégia pregada por Lula. Na opinião de Dirceu, o tudo ou nada levará o PT ao isolamento, e, terminada a eleição, ao esvaziamento. 

Fundador do PT, José Dirceu defende a libertação imediata de Lula, mas, também, afirma que o partido não pode ficar refém do Judiciário. Tem que buscar outros caminhos. Entre eles, a indicação de outro candidato à Presidência. Em algumas das reuniões, Dirceu chegou a se exaltar, acusando parlamentares petistas de falta de visão. O ex-ministro olha para frente e aponta como opção viável o ex-governador da Bahia Jaques Wagner, que deixou o cargo por cima e fez de Rui Costa seu sucessor em 2014, sem maior dificuldade. Costa, agora, é candidato à reeleição e tem mais de 60% das intenções de voto. Wagner, portanto, seria capaz de herdar, em prazo curto, o imenso latifúndio de votos que Lula detém no Nordeste. Mesmo entrando no meio do páreo, o ex-governador teria condição de passar para o segundo turno. É o que pensa Zé Dirceu. Resta, porém, quebrar a resistência de Lula.