O Brasil de apenas dois partidos
O grande jornalista Barbosa Lima Sobrinho disse, certa vez, que o Brasil sempre teve só dois partidos: o de Tiradentes, o partido da autonomia e da independência; e o de Silvério dos Reis, o partido da subordinação e da entrega. O segundo partido remonta a Calabar, passa por Joaquim Silvério dos Reis – delator da Inconfidência Mineira – e continua até hoje solidamente instalado no governo, no Congresso, no Poder Judiciário e na mídia.
Apesar de tudo, o prestígio de Tiradentes é imenso. Por ocasião do dia 21 de abril, um destacado integrante do partido de Silvério dos Reis teve o desplante de invocar Tiradentes, comparando-se de certa maneira a ele...
Não vale a pena subir pelas paredes, leitor. A hipocrisia tem seus méritos. Como dizia La Rochefoucauld, ela é a homenagem do vício à virtude. No dia em que o vício parar de homenagear a virtude estaremos perdidos para sempre.
Mas não quero discorrer sobre o partido de Silvério dos Reis e os seus numerosos integrantes. Seria deprimente, para mim e para o leitor. Vamos pensar um pouco nas nossas raízes e nos nossos mortos? É deles que pode vir o ânimo, o élan e a energia para continuar a luta por um país criativo e independente.
Não podemos esquecer que o Brasil produziu uma série de figuras extraordinárias. Lembro, por exemplo, Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Heitor Villa-Lobos, Roberto Simonsen, Gilberto Freyre, Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna e Celso Furtado. É um grupo heterogêneo, eu sei, que inclui desde um comunista como Niemeyer até um industrial como Simonsen, passando por um keynesiano como Furtado, além de artistas, políticos e sociólogos. O que esses brasileiros têm em comum? O traço que os une, a meu ver, é a convicção compartilhada por todos eles de que o Brasil é um país especial, capaz de desempenhar um papel importante no mundo. Em uma palavra: autoconfiança.
Nas suas “Memórias de Guerra”, De Gaulle escreveu que durante toda a sua vida ele sempre se fizera “uma certa ideia da França” como nação predestinada a um papel destacado e excepcional. Se acontecia, ao contrário, de sua trajetória ser marcada pela mediocridade, pela mesquinharia, pelo fracasso, isso parecia, a seus olhos, automaticamente, uma anomalia absurda, imputável não à França, mas aos franceses.
Todos os brasileiros que mencionei, com variações e peculiaridades, claro, sempre se fizeram “uma certa ideia do Brasil”: a de que o nosso país, pelas suas dimensões, suas qualidades, suas singularidades, está destinado a ocupar um lugar de destaque no planeta. Megalomania? Os partidários de Silvério dos Reis se opõem ferozmente à ideia de um Brasil grande. São os “realistas”, os defensores dos “limites do possível”, das “utopias viáveis”. Sofrem de nanomania, como observou o ex-chanceler Celso Amorim. Os brasileiros nem sempre estão à altura do Brasil.
A nanomania alimenta-se da falta de imaginação. Os partidários de Silvério dos Reis, mesmo os mais inteligentes, se notabilizam por um padrão de comportamento imitativo, mimético, pela aceitação acrítica dos valores, das tendências e dos modismos que vêm dos Estados Unidos e da Europa. O oposto disso não é o fechamento e a xenofobia, leitor, mas sim a absorção criativa das influências externas – outro traço comum aos brasileiros que mencionei acima. Essa absorção criativa foi caracterizada pelos modernistas, por Oswald de Andrade em especial, como a antropofagia brasileira, a capacidade de digerir e recriar as qualidades e os valores do estrangeiro. Metáfora poderosa, que sintetiza bem o espírito de toda uma geração de brasileiros notáveis. Esse espírito não se perdeu. Corre no nosso sangue e nos nossos sonhos.
* Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento e diretor-executivo no FMI pelo Brasil
