Sempre aos domingos - “O sol na cabeça” é ternura incendiária
Dia desses, ouvi de um espírito de porco que, depois da onda do “favela movie”, o livro “O sol na cabeça”, de Geovani Martins, “periga abrir a onda do favela book”. A pessoa tem que ser intelectualmente muito rasa para resumir desta forma um dos livros mais fascinantes que eu já li em muito tempo. “O sol na cabeça” me deixou tão impressionado - pelo realismo narrativo, pelas palavras poderosas, pelo impacto dos sentidos, pela empatia arrebatadora - como eu só havia ficado após ler o sublime ”O amor dos homens avulsos”, de Victor Heringer. Ou Ricardo Lísias. Ou Graciliano Ramos. Ou Aluísio Azevedo, lá atrás.
Há coisa de dois anos, antes de sua morte estúpida no auge de uma jornada criativa em ascensão, Heringer deu uma entrevista ao jornal “O Globo” em que afirmava, a respeito de “O amor dos homens avulsos”: “Quando falo em superar a indiferença, é em dois sentidos. Há a minha, já que a narração constante do entorno tende a desconectar o escritor do que está acontecendo; e há a indiferença geral, o não-tenho-nada-com-isso e o simulacro de solidariedade que vemos nas redes sociais. Eu, que antes buscava a saída pela ironia distanciada, pela teoria seca ou pela indignação paralisante, resolvi que a ternura pode ter uma potência também”.
Ternura em alta octanagem (que eu decidi interpretar como o sol que permeia todo o livro) é exatamente o que costura todos os contos de “O sol na cabeça”, apesar de seus temas duros: a ausência dos afetos na origem dos personagens, o desespero pelos afetos na construção dos mesmos, a tirania do crime (organizado ou miliciano), da polícia e das drogas (três pontas de um triângulo que é a cara do Rio, em particular, e do Brasil, em geral), a solidão das periferias todas (tanto as da alma quanto as geográficas), as juventudes sem horizontes, o medo do preto, do pobre, do diferente.
Mas “O sol” vai além em sua força narrativa, porque os contos ali, naquelas páginas, dão poder de fala, de discurso, de articulação e de visibilidade à grande maioria da população brasileira que outra parcela da população - e a mídia tradicional - insiste em não apenas não enxergar, como criminalizar. O poder de Geovani Martins é o talento que o cara possui de transformar em palavras a invisibilidade, a ausência de oportunidades, o desprezo aviltante imposto pelo status quo a tudo que está às margens e as angústias da periferia. Algo que ele, morador das periferias todas e no pleno domínio das palavras e dos sentimentos, transformou no arrasador e revolucionário “O sol na cabeça”.
Ao contrário da política, onde as ações de fato transformadoras podem ser abatidas e acuadas de forma aterrorizante num tiroteio no Estácio e na imobilidade das autoridades, a literatura tem espaço de revolução perene. E ainda que não tenha sido sua intenção, Geovani Martins faz isso de forma sublime. Particularmente, o conto “Espiral” me deixou muito desestabilizado. Seu desenvolvimento pega a comuníssima expressão “trocar de calçada porque vem um negro suspeito na sua direção” e faz uma inédita virada do jogo. E se “o negro suspeito vindo em sua direção” decidisse contar sua visão da mesma experiência? E mais: e se “o negro suspeito na sua direção” decidisse transformar o fato num experimento perto dos limites e das fronteiras onde um acaso vira uma premeditada ação provocativa possível e provavelmente trágica? “Espiral” é um dos contos mais poderosos que eu já li. Todo o livro, aliás.
Eu posso estar absurdamente entusiasmado com o talento e a prosa de Geovani Martins em tempos de polarização, a que colocou de lado opostos simplificações nacionais como “cidadãos de bem e defensores da moralidade” contra “vagabundos defensores de bandidos”, mas como não traçar paralelos? Como não dar boas-vindas a um livro que coloca luzes em tons de cinza? Que destrói zonas de conforto?
Fosse “O sol na cabeça” adotado por escolas públicas e privadas de todo o país, em dez anos todos os altos Gáveas, Leblons e Higienópolis estariam em ruínas.
Eu sei, eu sei, sou um otimista. E tanto Giovani Martins como Victor Heringer são culpados disso. A literatura brasileira subiu de patamar. Muito.
