Senhor, tende piedade de mim!!!

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Ganhei  vizinhos novos, coisa que sempre me deixa tensa, porque a gente nunca sabe  o que nos espera. Desta vez, e logo nos dez minutos do primeiro tempo, já fiquei sabendo que me aguarda um futuro de muitas aporrinhações. O casal é idoso, mas não pode ser tachado – ainda – de gagá. No dia mesmo da mudança, o último sábado, quente e ensolarado, já tive uma amostra: ao sair para passear com meu cachorrinho, um também idoso como eles, que não faz mal a ninguém, o bicho latiu porque estranhou a quantidade de gente estranha no hall do elevador. Apenas latiu. O que foi o suficiente para a madame latir também, só que em diapasão mais alto. Pensei cá com os meus botôes que dia de mudança enerva até santo, que o calor não estava contribuindo, e deixei pra lá. Não sem antes registrar que o tom de voz da mulher era de gentinha de quinta.  Quando voltava da rua, subi no mesmo elevador com o marido, a quem civilizadamente me apresentei e dei as boas vindas,  como se nada tivesse acontecido. Ele me tratou na mesma moeda e fiquei realmente esperançosa de que dias melhores viriam para o meu Bubi, que não merece esse tipo de tratamento,  e pra mim, por supuesto.

Ledo engano. Dois ou três dias depois, Maria, minha secretária doméstica há oito anos, pessoa finíssima,  de fala mansa e baixa, abre a porta para sair com o Bubi e é a vítima da vez.  Disse textualmente ( e com as letras que não completarei aqui)  a minha nova vizinha: “PQP, lá vem esse cachorro!!!!”.  Ato contínuo, embarafustou-se ainda resingando e xingando  pela cozinha do  seu apartamento.

A falta de educação, de civilidade, de urbanidade de certas pessoas  não me agride apenas. Me assusta. Se em menos de uma semana essa nova vizinha já está aprontando, o que será que ela estará fazendo no Natal? Minha educação não permite que eu revide à altura -  mas também não quero lamentar, como fez o grande Rimbaud em seus versos imortais: “Par delicatesse j’ai perdu ma vie...” O que fazer, então?

Só tem um jeito:  Ah, Senhor, faça com que eu ganhe a MegaSena acumulada!!!!

 

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Manda o bom senso que, antes de comprar ou alugar um imóvel, o candidato procure saber de tudo o que diz respeito à sua futura morada: a que horas bate o sol, a quantas vagas de garagem tem direito, se há câmeras de segurança, se a convenção do condomínio permite bichos – e aí, no caso específico da velhota histérica que virou minha femme d’à côté, se seu vizinho tem cachorro.

No caso da velhota histérica, pelo pouco que percebi na movimentação pré-mudança, quem cuidou de tudo foi o maridão. Essas mulheres chatas sempre se dão bem, têm sempre o faz-tudo a postos, de cara alegre e boca fechada. Ele cuidou de tudo, visitou e vistoriou as obras do apartamento,  e ela só entrou com a reclamação e com os escândalos. O maridão, como é típico nesses casos de mulheres sempre à beira de um ataque de nervos, nada faz, nada diz. Acho que tem medo que sobre para ele. Eu também. Tremo em pensar no que ainda virá por aí.

Ah, Senhor, faça com que eu ganhe a MegaSena acumulada!!!! E, se isso não for possível, dá-me paciência, educação e sangue frio. Muita desgraça que a gente lê nos jornais  começa com pentelhação de vizinho. Afasta de mim esse cálice. Ou os vizinhos. Ou eu e o Bubi.

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Hora da saudade. O jornalista Fritz Utzeri, que tão cedo partiu, deixou para trás uma legião de amigos que com ele conviveram e, sobretudo, aprenderam. Foi uma rara figura de cintilante inteligência e cultura, casado com uma doce criatura, a Liège, que por 50 anos foi a mais  perfeita tradução do que seja uma mulher e companheira.  Descanse em paz, Fritz. Todo meu carinho, Liège.