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Crônica: Trabalhando, mas de olho nas novelas

Por Anna Ramalho

Costumo me definir como audiência inercial da TV Globo – no horário das novelas, especialmente a das nove, estou a postos. 

Seja lá  qual for a trama da hora.  Uso essa desculpa sempre que me convém, mas a verdade verdadeira é que sou noveleira assumida desde que o gênero aportou por aqui. Assisti a novelas que até Deus duvida. Dia desses, ri muito no cabeleireiro com Marieta Severo, quando, comentando sobre mulheres que enganam idade, a maravilhosa ( e super em forma) atriz saiu-se com esta: “E você acha que posso enganar idade quando tem um montão de gente que olha pra mim e se lembra do Rato do Sheik de Agadir? É só uma questão de fazer conta....”

Eu certamente assisti ao Sheik de Agadir e bem me lembro do misterioso Rato e de Marieta, cabelão comprido e queixo pontudo, perpetrando maldades inacreditáveis naquela delirante novela de Glória Magadan, a pioneira do gênero. No Sheik, também, a comadre da Marieta - a inesquecível Leila Diniz – e Márcia de Windsor, Amilton Fernandes, Yoná Magalhães, Henrique Martins. Gente, isso é praticamente capa da Bíblia, né, não?

Dessa época da TV em preto e branco, na minha opinião, nenhuma novela encostou em Selva de Pedra, de Janet Clair, que trazia Regina Duarte,  Francisco Cuoco e a também inesquecível Dina Sfat como o triângulo amoroso da trama cujo capítulo final bateu 100% de audiência.  O remake não emplacou. E nem poderia. Tenho também a convicção que, tal como sua Selva de Pedra, Janet Clair é única, insubstituível, ainda que tenha deixado discípulos diretos como Gilberto Braga e Glória Perez. Acho Glória mais janetiana do que Gilberto: o delírio, o exagero estão sempre em suas tramas, que inegavelmente têm forte apelo popular. Lembro como eu ria em O Clone e Caminhos das Índias, especialmente, com a quantidade de vezes que os personagens saiam do Rio para o Marrocos ou para a Índia, como se fosse ali do lado, assim tipo Niterói. Eles devia ter milhas em quantidades industriais para saracotearem dessa maneira, digamos, intercontinental. É ou não é?

                                                                 ***

Fiquei chocada essa semana quando soube que Fina Estampa está com alta pontuação no Ibope. Bom, o povo deve gostar, né?  Acho fraquésima. E meus muitos amigos do Facebook, que assistem a novela comentando junto comigo, também. Mas é claro que eu e os meus muitos amigos do FB  não somos uma audiência representativa quantitativamente, e sim qualitativamente. Rimos muito e a toda hora – é um besteirol irresistível com a histérica Torloni gritando o tempo todo, uma coisa insuportavelmente ridícula; o chef do Dalton Vigh resumindo sua grande gastronomia à confecção do café da manhã da mulher e dos filhos;  a Lilia Cabral, atriz maravilhosa, dando pinta de virago, e arrebanhando namorados como se fosse a gostosona da Barrinha;  aquele casal infértil, a jornalista periguete de decotes audaciosos e modelitos de gosto altamente duvidoso;  a médica da Sorrah, um porre total; os ripongas do Quebra-Mar, aquele lutador à beira da morte, constrangedor em seu fraco desempenho, a Dieckmann que representa todos os papeis do mesmo jeito –  enfim, uma turma absurdamente chata, um desperdício de talentos de dar nervoso.

Como se não bastasse, vez ou outra, quando a Globo deixa,  lá vem comercial do restaurante que o autor comprou em Itaipava. Feio, isso. Pra quê? Falta de dinheiro é que não é.

Enfim, pelos índices de audiência, sou voto vencido. Isso aqui, ioiô, é um pouquinho de Brasil, iaiá... , como cantava Caetano na maravilhosa Vale Tudo, a melhor novela de todos os tempos na história da televisão brasileira. É isso aí, é Fina Estampa ( ou, como quer uma colega do Face,  Fim da Estampa)  e cara alegre.

                                                                    ***

Em compensação, a novata Lícia Magno está dando um banho no ingrato horário das 6. A Vida da Gente é do balacobaco. A história é boa, os desempenhos são muito bons, com especial destaque para Ana Beatriz Nogueira, que arrasa como aquela mãe louca, aproveitadora, manipuladora. Gisele Fróes está divina e Marjorie Estiano comovente, com a sua Manu. Até o menino galã, Rafael Cardoso,  tão novinho, está ótimo. Todos estão tão bem que é até injusto apontar nomes.

De Aquele Beijo ainda não posso falar, mas aposto todas as minhas fichas. Miguel Falabella é brilhante, sua equipe idem, e o elenco é arrasa-quarteirão.

                                                                   ***

Despeço-me com a fala da semana, que coube à excelente Regiane Alves, que vive uma ex-personal trainer, deslumbrada, que deu o golpe do casamento no bem sucedido advogado ( Paulo Betti): “A pior gordura localizada é o OLHO GORDO !!!!!!”

Hilário. Perfeito.

Lícia Manso já deve estar sentindo seus efeitos, né, não?