Crônica: Santa Teresa, rogai por nós!

Por Anna Ramalho

É inevitável voltar ao passado diante de certas notícias. Como essa tragédia em Santa Teresa. 

Eu era menina, muito pequena, e pelo menos uma vez por mês andava naquele bondinho com minha avó, mamãe e a mana, que ainda era menorzinha.

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Eu era pequena, mas o programa foi sempre tão inesquecível,  que dele me lembro até hoje. Chego a sentir no rosto a brisa batendo enquanto o bonde subia a ladeira , ouvir o motorneiro cobrando a passagem e o barulho das rodas nos trilhos. Lembro muito bem o mico que era o desembarque, com vovó sempre à beira de um ataque de nervos, com medo de alguma desgraça que porventura estivesse à espreita. Ela era dramática assim.

O desembarque era invariavelmente em frente ao Carmelo de Santa Teresa, onde morava minha tia-avó, Madre Maria José de Jesus, priora do convento e que lá ficou enclausurada por 40 anos. Nas duas únicas vezes em que deixou o claustro, deve ter usado o bondinho – aquele transporte tão pitoresco, que, naquelas tardes fagueiras, nos fazia pensar que estávamos a caminho do céu.

O historiador Capistrano de Abreu, pai da freira e meu bisavô, também deve ter feito uso do bondinho quando foi entregar sua filha a Deus, no Carmelo, aonde nunca mais voltou. O ateu quase morreu de desgosto com a opção por Cristo da filha amada e resolveu não vê-la mais. Só se correspondiam com longas e saudosas cartas.

Santa Teresa  era um bairro residencial e bucólico naquele tempo, propício mesmo ao recolhimento, à oração. Fazia todo sentido abrigar um convento. Cujo, aliás, está lá até hoje – uma construção linda do Brasil colonial – e imagino como as freiras estarão vivendo em meio ao frege que virou o bairro.

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Quando eu era menina, nós pegávamos o bondinho no antigo Tabuleiro da Baiana, cruzávamos aqueles Arcos históricos, e éramos brindadas com aquela vista deslumbrante da Praia do Flamengo ainda sem o Aterro.

Com o passar do tempo,  minha tia morreu, Santa Teresa cresceu e eu lá só vou de carro, quando vou. Aliás, preferencialmente, de táxi. A segurança por ali é precária também, como de resto anda precária em toda a cidade.

Dizer que Santa Teresa  é a nossa Montmartre é pouco. E olha que amo Paris! A paisagem natural do Rio faz com que Santa Teresa seja um bairro único no mundo: onde mais o turista se debruça numa grade e ( se não cair)  vê o Rio aos seus pés?  Que turista pode imaginar que, seguindo sempre em frente pela Almirante Alexandrino e se nenhum meliante cortar seus planos, vai cair na exuberância e na beleza única da Floresta da Tijuca?  Hoje tem hotel cinco estrelas ( assaltado há poucos dias), restaurantes ótimos, bares idem, ateliês de arte e até a livraria que minha amiga Gilda Taunay tem em sociedade com um monte de gente. Um charme de livraria, diga-se.

Mas a referência de Santa sempre foram seus bondinhos e o irresistível apelo que eles exercem sobre os moradores do Rio de um modo geral e os turistas em particular.

E aí vem essa tragédia que enluta a cidade. Foi uma tragédia anunciada, dizem os moradores do bairro. E eu acredito neles.

Não quero aqui emitir juízos de valor. Culpar fulano ou sicrano. Mas é mais uma desgraça numa cidade em que o prefeito se gaba de estar fazendo e acontecendo, oferecendo soluções que ficarão enquanto as Olimpíadas passarão. Não quero saber se a culpa é estadual ou municipal - não adianta, o estrago está feito. Choro quando penso nos pais que perderam a filha de 12 anos e que só pensavam em passar uma agradável tarde em família num dos mais famosos cartões postais do Rio.

                                                                       ***

Este estrago está feito e não adianta jogar a culpa no pobre do motorneiro. O Rio está cheio de obras para a Copa e as Olimpíadas. É corredor transolímpico pra cá,  passarelas e viadutos moderníssimos pra lá, e nada de arrumar o básico nos pontos turísticos.

Será que o bondinho do Pão de Açúcar vai ter que cair também?  Acorda, Rio!