Obama já trabalha para enfrentar crise
Gabriel Costa, Jornal do Brasil
RIO - A comemoração da vitória histórica já foi deixada para trás pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama. O tempo agora é de preparar a transição de um governo republicano desgastado e impopular para a administração democrata que chega com ares de salvadora no momento de redefinição do próprio sistema capitalista frente à crise global.
O futuro líder deve anunciar, já nos próximos dias, medidas pontuais contra o abalo financeiro. Um adiantamento para o programa de recuperação econômica de Obama poderá ser um pacote de até US$ 300 bilhões para obras de infra-estrutura e alívio a mutuários inadimplentes, que deve ser votado em menos de duas semanas, quando o Congresso voltar do recesso. O presidente George W. Bush, precisa, no entanto, apoiar as medidas. Bush prometeu, após a vitória de Obama, "cooperação total" com seu sucessor.
Durante este período de transição, manterei o presidente eleito totalmente informado das decisões importantes disse o atual presidente.
Obama, que já se reunia com assessores para planejar a transição durante as eleições primárias, em maio, agora trabalha com uma equipe de transição composta por 12 grupos de trabalho voltados para diferentes setores do governo. O time da transição é dirigido pelo ex-chefe da Casa Civil no governo Clinton, John Podesta, pela conselheira Valerie Jarrett e pelo chefe de gabinete de Obama no Senado, Pete Rouse.
Neste momento definidor, a mudança chegou à América disse Obama em discurso na noite de terça, a mais de 200 mil pessoas no Grant Park, em Chicago.
A expectativa norte-americana e mundial está voltada para o dia 20 de janeiro de 2009, quando o novo presidente assumir o governo. Focado em propostas de maior regulamentação econômica e defensor do comércio "justo" no lugar do livre comércio, Obama traz consigo o peso da responsabilidade sobre os novos rumos da combalida maior economia do mundo.
Para Carlos Thadeu de Gomes Freitas, ex-diretor do Banco Central e chefe do departamento econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC), políticas de regulamentação são tão necessárias no momento que seriam tomadas por "qualquer presidente que assumisse". O ponto mais importante, portanto, é apontar essas medidas para o alvo certo.
Ele tem que mirar no consumo, não na poupança diz o economista. Além dessa necessidade de maior participação do Estado em alguns setores, que na prática já está acontecendo, mesmo que temporariamente, provavelmente será necessário um pacote fiscal voltado para o prolongamento das dívidas de consumidores em dificuldade, o que não era dito pelo McCain.
Um obstáculo para as medidas anticrise de Obama será o déficit orçamentário dos EUA. Analistas prevêem que o saldo negativo do orçamento pode alcançar US$ 1 trilhão em 2009, devido aos custos do socorro ao setor financeiro iniciado no último ano do mandato de Bush.
Para o economista Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES, parte dessas despesas será suprida pelos planos de Obama de transferir as maiores parcelas de impostos para o topo da pirâmide social, com cortes nas taxas das classes média e baixa.
Até que a economia mundial volte aos trilhos, os governos precisarão amparar as pessoas. Obama precisará de medidas de emergência, e o custo disso vai para os aumentos nos impostos sobre os mais ricos diz Lessa.
Alessandra Ribeiro, analista de mercados e economia internacional da Tendências Consultoria, acredita que Obama vai atuar com foco no cenário doméstico, preocupado em oferecer emprego e renda para a população americana. Para ela, Obama herda um governo cheio de problemas e muito mal avaliado na questão política.
O novo presidente terá de melhorar a imagem dos Estados Unidos perante o mundo por causa das tropas no Iraque e no Afeganistão ponderou.
Já Marcelo Coutinho, cientista político do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), ressalta que, embora a eleição de Obama aumente a confiança em um governo com mais credibilidade à frente da maior economia do mundo, o cenário mundial atualmente é muito diversificado, e o fim da crise depende da atuação de diversos motores, como os países emergentes.
(colaborou Cláudia Dantas)
