Dia Mundial Sem Carro: na contramão da lógica

“Não  me preocupam os que não veem a solução e sim os que não veem o problema”, frase do escritor inglês G.C.Chesterton e que nunca foi tão verdadeira quanto na última segunda-feira, “Dia internacional Sem Carro”. Este movimento, que já chamei em crônica aqui no JB de Dia da Demagogia, como sempre, foi um fracasso mundial, simplesmente por estarem na contramão da lógica e longe de enxergarem o problema da presença de carros demais, para espaço viário de menos.

Para justificar o título, que parece até irreverente, e é, vamos raciocinar juntos:

Em 1912, Henry Ford (cuja biografia é de imprescindível leitura a quem deseja atuar no trânsito) declarou que atribuía o sucesso de seu negócio à preguiça e ao  desejo de conforto inerentes do  ser humano. Também declarou que o novo produto teria um preço acessível a qualquer assalariado, e que ele e sua família dariam graças ao Criador pelo acesso fácil aos espaços verdes da natureza. Só por estas declarações, duas conclusões podemos tirar:

O carro foi feito para o lazer, nunca para o ir e vir para o trabalho. Até hoje, inclusive nos postos de pedágio, é chamado de carro de passeio.

Em segundo lugar, só um meio de transporte capaz de preencher as necessidades de preguiça e de conforto pode substituir o seu uso, indevido, para o ir e vir para o trabalho.

Quando residi em Haia, na Holanda, durante mais de dois anos, jamais utilizei o meu carro particular para ir para o trabalho, somente para o lazer. Possuía um transporte confortável e rápido, com horário impecável.

Em 1963, o governo de sua Majestade Britânica, através o seu Ministério dos Transportes, houve por bem criar um grupo de trabalho para reorganizar o trânsito nas cidades da Grã- Bretanha, adaptando-as ao automóvel. Presidiu o grupo de trabalho Collin Buchanan, CBE (Commander British Empire) e o resultado dos trabalhos gerou um precioso livro, denominado “Traffic In Towns"  (Trânsito nas cidades), mais conhecido como “Buchanan's Report (Relatório do Buchanan) em homenagem á genialidade do principal técnico responsável. Pude estudá-lo, antes de assumir o trânsito do Estado da Guanabara e, em 1966, assisti aqui, no auditório do Clube de Engenharia, a uma sua brilhante conferência a respeito do assunto. Tornei-me um “Buchanista”. Eu e os dois técnicos que tiveram sucesso em exercer as funções de dirigir o trânsito em São Paulo e em Curitiba, respectivamente: Roberto Scaringella e Marcos Prado

Pois foi uma declaração do mestre Buchanan que torna ridículo e demagógico o “Dia Sem Carros”, quando disse, em 1963: “O veículo a motor é uma notável invenção, tão desejado que se inseriu, indubitavelmente, numa grande parte de nossas atividades. Não existe nenhuma possibilidade de se reverter este quadro”. Eu poderia encerrar este artigo dizendo aqui: “Magister dixit”, mas ainda falta dizer o que fazer para que, realmente, se equacione o problema de mobilidade urbana por ele criado.

O uso racionado pelos automóveis das vias de rolamento, o sistema URV (Utilização Racionada das Vias), é a única solução, em curto prazo, para solucionar o problema que tão inteligentemente Buchanan e o seu grupo de trabalho equacionaram.

Tão correta é esta solução que preenche em todos os seus detalhes o que outro “monstro sagrado” da ciência do controle do trânsito, também inglês, Sir Alker Tripp, enfatizou ao dizer, em 1936: “No trânsito, tudo que se puder obter através medidas construtivas não deve ser imposto mediante restrições legais.”

Até que tenham a coragem moral ou a humildade cívica de adotá-lo, fiquem brincando de BRT, lotadíssimo e, pior ainda, o uso das bicicletas, ideais para os dias de chuva torrencial ou de calor de 40 graus. Vamos falar sério gente. Afinal, o problema está aí e veio para piorar na progressão, por enquanto não geométrica, uma vez que a produção de veículos é a locomotiva que puxa a economia nacional, com suas exportações.