Um convite honroso

Recebi, na terça feira que passou, um surpreendente e honroso convite para comparecer ao programa de entrevista do eminente jornalista Alexandre Garcia, no canal Globo News,  para todo o Brasil, sobre o tema Mobilidade urbana.

Digo surpreendente pelo fato de que o idoso neste país, mesmo que seja um especialista experimentado, é considerado superado. Atribui o convite à minha relação de amizade com o apresentador. Infelizmente, a minha presença implicava no meu deslocamento  até Brasília, o que para mim não seria viável, uma vez que tornei-me um comodista, curtidor de minha casa e de meus hobbies, inclusive o de escrever para jornais, o estudo, a leitura intensa e, pasmem, a jardinagem com flores, fruto talvez do meu período de vida na Holanda. Ao responder ao gentil convite, justifiquei que, atualmente, só me desloco do Rio, para trabalho, a São Paulo, e para rejuvenescer minha alma, quando posso, até Londres.

Mas o tema fez com que eu assistisse ao programa, de excelente nível, ao qual  compareceram o ministro da Cidades, Aguinaldo Ribeiro, e o arquiteto e urbanista Nazareno Affonso, especializado em transporte e, segundo confessou,de origem e experiência metroviária.

O programa, de altíssimo nível, enfocou a solução da mobilidade urbana, com a construção de um transporte de massa, enfatizado pelo doutor Nazareno, o sistema de ônibus rápido BRT, e, pelo ministro, a  construção do metrô.

Infelizmente, se enquadraram no que eu sempre digo: não me preocupam os que não veem a solução e, sim, os que não veem o problema, plagiando o autor inglês G.S, Chesterton.

A certa altura do programa, o entrevistador, citou-me ao declarar haver recebido um arrazoado meu em que declarava não ser o BRT, apenas, a solução ideal para uma megalópole, como Rio ou São Paulo,  e, pelo menos no Brasil, para cidades de médio porte, como Curitiba, por exemplo.

Infelizmente, talvez por não se lembrar, meu amigo Alexandre Garcia não mencionou a minha observação mais radical que é: o transporte de massa, quer seja o metrô, o BRT, o BRS ou VLT, está para a mobilidade urbana como o sexo para o casamento. Ambos são muito importantes mas, sozinhos, não trazem a felicidade completa..

À citação de minha avaliação, o doutor Nazareno a desdenhou lembrando que visitara em Bogotá, cidade de 6 milhões de habitantes, o sistema de BRT, de autoria do especialista colombiano Enrique Peñarosa, ex-prefeito da cidade e que lá  recebeu o nome  de Transmilênio, como na Curitiba de Jaime Lerner se chamou de Ligeirinho.

Na sua competente argumentação, o doutor Nazareno teceu louvores ao BRT Transmilênio, declarando o seu testemunho pessoal, de haver percorrido um trecho de 14 km, naquele meio de transporte em apenas vinte minutos, contrastando com o tráfego de automóveis, totalmente congestionado. Só esta observação desculpável, para quem não é engenheiro de tráfego, comprova o que eu disse acerca do transporte de massa eficaz, para resolver a mobilidade urbana.

Para aliviar o que eu afirmara, foi lembrado também pelo especialista que a opção do BRT em Bogotá segue as normas da operação do metrô e que lá criaram duas faixas de rolamento para aquele meio de transporte, permitindo os ônibus diretos, desta forma agilizando-os em relação ao carro de passeio.

O livro clássico sobre engenharia de tráfego Traffic Engineering Hand Book, publicado pelo instituto dos engenheiros de tráfego dos Estados Unidos, país onde, em 1926, nasceu a engenharia de tráfego, aconselha: quanto melhor o engenheiro de tráfego conhecer os hábitos da população da cidade onde irá exercer o seu oficio, mais fácil será sua tarefa.

Não vejo nenhuma semelhança entre o habitante de Bogotá e o do Rio, e também não creio que a Colômbia tenha indústria automobilística pujante, como nós, e que dependa dela o sucesso da sua economia, pelo que gera de empregos e pela exportação de seu produto. O próprio ministro, em suas declarações, disse da importância da industria automobilística e do fato de que já atingimos a invejável cifra de 6 milhões de carros produzidos por ano.

E aí chegamos ao grande problema da mobilidade urbana: o espaço para circular o enorme número de automóveis, transportando apenas o seu condutor, fruto do hábito do carioca e da deficiência crônica dos meios de transporte.

Sobre as imensas verbas anunciadas pelo ministro para a construção dos metropolitanos, que não é instantânea, deve-se considerar que, no Rio, são emplacados 5 mil carros novos por mês

Foi até bom eu não ter comparecido ao programa, pois iria constranger os entrevistados ao levantar estas premissas e, para piorar, lhes entregar, em mãos, o texto da  palestra que realizei em São Paulo, em outubro de 2008, para a associação dos engenheiros de mobilidade urbana, onde expunha o meu projeto URV, que extingue, em curto prazo, em cerca de 50 a 80% o maior problema da mobilidade: O motorista sozinho no seu carro, fazê-lo, impunemente, nos horários de pico, na razão de 96% dos carros de passeio circulantes.

 

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - [email protected]