Senhoras, eu vi

Na mesma edição matinal do JB, do dia 11 que passou, uma excelente matéria sobre o ferimento à bala a um motorista que, sem orientação, invadiu o acesso a uma favela próxima do Aeroporto Tom Jobim, expressei, por haver sido consultado, a minha opinião, com a independência que sempre tive e com o conhecimento de causa, fruto de minha longa experiência no assunto. 

Comentava que deveria haver, em todos os acessos específicos ás favelas, onde por falta de controle do acesso de seus moradores, ainda existem integrantes do crime organizado, a placa: Acesso restrito, zona de alto risco, acompanhada da placa de sinal de perigo, constante do Código de Trânsito anterior e, erroneamente, inexistente no atual. Ela representava o triângulo vermelho refletivo, que se coloca na pista, quando se vai trocar um pneu ou o carro enguiçou, exatamente para alertar do perigo existente os motoristas que por ali trafegam.

Acontece que o nosso jovem e bem intencionado prefeito também declarava, na mesma matéria, ser contrário à colocação de qualquer aviso de perigo. Naturalmente, face ao excelente relacionamento com o prefeito e com o governo do estado, no interesse maior do bem do município, tenho receio de criticar esta sinalização ao pôr em dúvida a ação do eficiente secretário de Segurança no combate ao crime nas comunidades residentes em favelas, onde o governador vem implantando as Unidades de Policia Pacificadora. Como também observei que pacificar as favelas sem o controle do seu acesso seria uma "enxugação de gelo". Em respeito às duas duas autoridades, vou esclarecer o porquê de minha opinião, com meu conhecimento técnico e baseado em exemplos. 

Em janeiro de 1946, portanto menos de seis meses após o término da Segunda Guerra Mundial, cursando eu o segundo ano superior da Escola Naval, tivemos, nós, aspirantes a guarda-marinha, ou seja, todo o corpo de alunos da Escola Naval, juntamente com 30 cadetes da Aeronáutica e 30 do Exército, viajamos para a Europa, num navio de transporte, a fim de acompanharmos a cerimônia em que os novos cardeais sul-americanos iriam receber o chapéu cardinalício das mãos do papa Pio XII, em Roma. 

Após rápida parada em Gibraltar, seguimos para Nápoles, que apresentava um aspecto de destruição material e moral, fruto da recém-finda conflagração. O romance O último conversível, do autor americano Anton Myrer (editora Record, 1980), retrata de maneira fiel o que era Nápoles naquela época. Havia um toque de recolher às 22 horas, e, durante o tempo e área em que se podia andar pela cidade, as patrulhas do V Exército americano, de moto, com uma submetralhadora presa à haste do guidon, pistola Colt 45 na cintura e quatro granadas de mão, penduradas no peito, circulavam por toda esta área, onde se podia andar. 

Na entrada das ruas onde o tráfego era proibido a qualquer cidadão de bom-senso, estava postada uma enorme placa, em inglês: OFF LIMITS, (fora dos limites) demonstrando que, além dali, havia perigo de vida. Pois bem, se com toda aquele aparato bélico em mãos de profissionais experimentados, inclusive o toque de recolher, havia placas alertando para o perigo em determinadas áreas, por que, aqui no Rio, não se devem colocar também placas que alertem para o perigo que vem do crime organizado? 

Não considero critica ao esforço meritório do secretário de Segurança, mas, pelo contrário, uma colaboração inestimável para a segurança como um todo. Aliás, em matéria de segurança, aprendi, quando fiz parte da Secretaria de Segurança, como diretor do Detran-GB, sigo o provérbio latino Quod abundat non nocet. Nunca é demais o excesso de zelo.. Quanto ao controle dos condomínios, em que se constituem as favelas, é imprescindível o controle de entrada e de saída, em beneficio da segurança. No caso das comunidades carentes, da maioria de bem que lá habita, imprescindível também para a sua segurança. Sem este controle, os traficantes continuarão circulando por lá livremente, atemorizando os residentes de bem, que continuam a conviver com o medo. 

Vi, em Marrocos, na cidade de Fez, uma comunidade carente, lá chamadas de Medina ou Casbah, numa área plana com 250 mil habitantes, cercada com muros, dotada de portas de entrada e saída, sob controle policial,como se fora um enorme condomínio. Fui a um jantar num restaurante típico no seu interior, onde acompanhou nosso grupo uma patrulha de polícia e ali permaneceu enquanto lá estivemos. Senhor prefeito, considere, para o bem dos moradores do Rio, que o senhor administra com desvelo, o que aqui foi explicado e, citando exemplos, com a intenção de alertá-lo e, plagiando Gonçalves Dias, em seu poema I Juca Pirama: "Senhoras autoridades, eu vi"! 

 * Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - [email protected]