Perigosa ilusão

Nos primeiros passos da indústria automobilística no Brasil, ocupou a pole position o Volkswagen, logo carinhosamente apelidado de “fusca”. Sem querer, ele mudou a maneira cautelosa de dirigir do brasileiro que, pasmem, ainda havia, tornando-o arrojado e afoito, face ao potente motor daquele ágil e de fácil manobra, pequeno grande carro. Esta influência generalizou-se quando ele passou a ser a maioria dos veículos das autoescolas. 

Senti, como diretor de Trânsito, este efeito maléfico na formação dos motoristas, muito diferente do que acontecia, no meu tempo de adolescente, quando os carros das autoescolas eram de freio mecânico e modelos tipo calhambeque, da década de 30. Normalmente, o primata condicionado, que somos todos nós, motoristas, sofre a influência, no seu comportamento, diretamente proporcional à potência do motor do seu veículo. Comprova esta impressão o que vejo nas minhas análises de acidentes para companhias de seguro, onde a maioria dos veículos envolvidos são os de pequeno ou médio porte, com motor de grande potência. Os seus condutores são imbuídos de possuírem um estranho poder de tudo poderem fazer no trânsito, que possui regras rígidas estabelecidas no seu código, que poucos conhecem, ou sequer o leram. 

Fiz esta introdução para alertar os condutores de motos, cuja condução, principalmente as mais potentes, lhes dá uma ilusão de um poder que não possuem. Muito ao contrário, quanto maior a sensação de poder, maior o risco de se acidentarem gravemente. Veio-me a ideia de abordar este tema, para esta semana, ao presenciar, na Avenida das Américas, a maneira como me ultrapassou e aos demais que dirigiam respeitando os limites de velocidade, um motociclista, em altíssima velocidade, o que me fez comentar com minha mulher: “Lá vai um acidente escolhendo um lugar para acontecer”. 

A sensação ilusória de poder, quando se dirige, quando não mata, aleija, ainda mais em veículos de duas rodas.Como ilustração prática e real, vou lhes narrar um fato que ocorreu comigo. Quando eu era autoridade máxima do trânsito do finado estado da Guanabara, fui procurado por um amigo, em estado de pânico, porque o seu único filho, já formado e independente, desejava adquirir uma moto de mil cilindradas, de uma famosa marca. Apelava para mim, uma vez que o filho possuía independência financeira para realizar o que ele denominava de sonho, para que eu, como autoridade, o convencesse dos riscos daquela, para ele, pai, aventura de jovem. Respondi-lhe que dependia só de ele evitar o que não desejava que acontecesse. 

Surpreso, meu amigo me perguntou como poderia convencer o filho dos riscos daquela empreitada. Muito simples, respondi, leve-o à enfermaria de acidentados do hospital público, que lhe convier, e ele, ao ver os acidentados por desastres com motos, irá preferir um carro esporte. Foi tiro e queda. Por acaso, havia na sua visita à tal enfermaria uma vítima de acidente, com uma moto de grande potência, que lhe custou a amputação de uma perna. 

Fica aqui o conselho para os que dirigem moto: que pratiquem a direção defensiva, até porque, estou convencido, é esta a condução individual do futuro, no tráfego urbano, face às inevitáveis restrições do acesso dos carros nos centros de negócios das cidades. 


* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - [email protected]