Sem a tradição não dá

Por Celso Franco*

O tema tradição é muito bem explorado no filme ou na peça teatral chamada Um violinista no telhado, quando enfoca as obrigações tradicionais do modo de viver do povo judeu, através os séculos, que os manteve como povo, até terem como pátria com o Estado de Israel.

Nós, no Brasil, infelizmente não cultuamos a tradição. Talvez sejam as únicas exceções a Marinha e o Exército, principalmente a primeira, nascida e baseada nas tradições da Marinha real britânica.

Quando, por ocasião da primeira eleição, para a prefeitura de Niterói, de Jorge Roberto Silveira, me vi na obrigação de procurar ajudá-lo, na difícil área do trânsito, fiel à amizade que existiu entre nossos ilustres pais, e tentei inovar.

Já lá se vão mais de vinte anos e, lembro-me bem, veio à minha cabeça a ideia, face às características especiais daquela cidade, tentarmos fazer da bicicleta um meio de transporte alternativo para sua população. As pequenas distâncias que ligam seus bairros ao centro ( e os manuais recomendam o seu uso para distâncias em torno de cinco km), a inexistência de subidas e de descidas, neste trajeto, tudo me convencia do sucesso do empreendimento. Falhou por não conseguirmos ter no ponto final de destino, na Estação das Barcas, um bicecletário e um vestiário dotado de armários e de chuveiros, para a indispensável troca de roupa, a fim atravessar para o Centro do Rio, principalmente, no verão.

Mas, ciente do meu pouco conhecimento sobre o assunto, da convivência da bicicleta, face à sua fragilidade, com os demais componentes do trânsito, pedi socorro aos consulados da Holanda, país onde morei dois anos e usei a bicicleta, e a Dinamarca, talvez mais tradicional ainda do que a Holanda, no uso deste transporte. Atendido com a maior presteza, vieram para as minhas mãos  as seguintes publicações: 1) da Holanda: Bicycle first, Bicycle master plan; 2) e da Dinamarca: Cycling in Denmark, from the past into the future e The danish road traffic act — esta última constitui o seu Código de Trânsito, com as adaptações e conselhos para o uso da bicicleta, com segurança.

Fiquei então convencido, quando soube da iniciação deste hábito nos meados dos trinta anos finais do século 19, ano 1871, na Holanda, por exemplo, da importância da tradição. A publicação dinamarquesa exagera quando diz que, se o norueguês já nasce com os esquis nos pés, o dinamarquês nasce montado no selim de uma bicicleta.

De fato, quem teve a oportunidade de conhecer estes dois países pôde verificar o enorme volume de bicicletas que circulam ordeiramente e protegidas em vias especiais, com separação material das demais faixas de rolamento.

Recordo-me, perfeitamente, do susto que levei, quando em Haia, onde residi, vi passar um almirante, fardado de jaquetão azul, pedalando tranquilamente a sua bicicleta indo para o trabalho. Ambos os países têm cerca de três quartos de sua população possuidora de bicicletas, embora somente metade seja considerada usuária contumaz deste veículo. Inventado em 1866, um triciclo, com o nome de velocípede, por um francês chamado Michaux, e que um holandês, chamado Otto Groenix van Zoelen, o copiou dois anos depois.

Não conheço nenhuma divulgação de preparação aqui, no nosso Pindorama, para inserir a bicicleta no contexto do nosso trânsito, onde impera a lei do mais forte e se ignoram as mais comezinhas leis de prioridade. É verdade que as publicações que possuo, apesar de todos os cuidados, aponta acidentes envolvendo ciclistas, em um número intolerável, face às facilidades de segurança que lhe são dadas, mas na maioria das vezes acontecem, como aqui, por culpa do ciclista. No nosso país, em Santa Catarina, fruto da tradição trazida pelos colonos alemães, a bicicleta se destaca como meio de transporte.

Outro belo exemplo é o subúrbio carioca de Bangu que, desde a fundação da fábrica de tecidos, no início do século passado, até o final da década de 50, teve na bicicleta o meio principal de transporte dos seus 3 mil operários e seus diretores, herdando a tradição dos ingleses de Southampton, que atuaram na construção da fábrica e do núcleo habitacional do lugar, tudo em estilo inglês.

Uma coisa, no entanto, ficou clara para mim: O uso da bicicleta,como opção de transporte, não é apenas um sinal de cultura de um povo mas, principalmente, de tradição e, encarando por este enfoque,  além do uso para lazer, é inviável em nossa terra, que não possui esta cultura, nem ao menos o cacoete.

 

*Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com