Pausa para reflexão
O noticiário está em campanha contra os motoristas de ônibus, como se todos fossem marginais. Não são, constituem-se, na sua esmagadora maioria, de chefes de família que enfrentam um trabalho duríssimo, num trânsito que quase não anda, sob um calor infernal, e ainda efetuam o trabalho que já foi do trocador.
A prefeitura anuncia uma reciclagem obrigatória desta classe tão importante para o nosso sistema de transportes, baseado, principalmente, nos ônibus. Já existem opiniões contra e a favor, como sempre acontece. Este fato não é novo, eu diria até que é cíclico. Depende principalmente do diretor do espetáculo, em que se constitui o trânsito urbano. Não é fácil dirigi-lo. Os obstáculos, provocados por diversos fortes interesses, e alguns intransponíveis, tornam esta tarefa das mais difíceis do governo.
No meu tempo comecei por colocar o número de série no teto e vigiá-los por helicóptero ou vigilantes voluntários, que os fotografavam do alto de seus apartamentos.Retirei-lhes as buzinas, com a anuência dos empresários. Coloquei um selo restritivo na bomba injetora Bosch, limitando a sua velocidade em 60 km/hora. Corrigi a colocação do tubo de descarga, que era para cima, tornado-o para baixo, como de fábrica, a fim possibilitar o controle correto, com equipamento próprio, do índice de gás CO. Instituí uma ronda permanente de motociclistas nas pistas de alta velocidade do Aterro do Flamengo. Com o apoio dos empresários tentamos criar a matrícula dos motoristas, com o propósito de identificar o que praticasse a infração e que deveria pagar por ela. Hoje, com a vigência do novo Código, que penaliza com perda de pontos a ponto de suspender a autorização de dirigir, não interessa aos empresários, que preferem bancar as multas a perder a sua preciosa mão de obra, hoje escassa.
Será possível que os homens de Brasília não enxerguem que esta punição do Código tira o sagrado direito do trabalhador de ganhar o seu sustento? Deveria haver uma exceção para os motoristas profissionais. Basta a punição pecuniária, retirada de seu minguado salário, e uma fiscalização eficaz ao motorista infrator devidamente identificado pela matrícula, assim como sobre o cumprimento, em seus contratos de trabalho, da legislação trabalhista. Finalmente, a reciclagem de uma instrução, que nunca tiveram, sobre as leis do trânsito.
Em 1969, sob a vigência do Ato Institucional número 5, a Guanabara sofreu umaintervenção branca na Secretaria de Segurança, com a nomeação vinda de Brasília de um excelente general, que moralizou e modernizou a Secretaria de Segurança, chamado Luiz de França Oliveira. Ao deixar a sua secretaria, ao final do governo, saiu sob uma chuva de pétalas de rosas, lançadas do helicóptero por ele comprado.
Após um período de troca de farpas, fruto de eu ser o único corpo estranho sob o seu comando, vencida a fase de desconfiança, tornamo-nos bons amigos, e consegui merecer dele o carinhoso tratamento de “marinheiro do asfalto”. Foi o melhor secretário de Segurança do antigo estado da Guanabara.
Pois bem, apesar disso, um dia me chamou e expressou o seu desejo de enviar motoristas de ônibus infratores para o presídio da Ilha Grande, como uma correção exemplar. Chocado com a ordem, como agora com esta campanha, tentando minorar o efeito, sem atacar as causas, sugeri, educadamente, com a mesma argumentação do inicio deste artigo, que, ao invés da punição draconiana, fossem enviados a um curso de reciclagem que eu criaria no Detran. Sugestão aceita por aquele homem de carranca fechada, que escondia um imenso coração, foi criada a Escolinha de Reciclagem e entregue à responsabilidade de uma mulher, a professora Mirian Benevides Braga, que já cuidava da Patrulha Mirim de Segurança Escolar. Foi um sucesso absoluto, e voltou a reinar a paz no reino dos homens de boa vontade.
Tomara que agora alguém, com poder de agir neste episódio triste, leia o que aqui aconselho, do alto de minha experiência octogenária, e também agora volte a reinar a compreensão e a paz entre os homens de boa vontade que, afinal, constituem a maioria dos envolvidos neste problema.
*Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. -acfranco@globo.com
