A guerra do trânsito

Na edição do dia 12 que passou, o jornal O Globo, com chamada de primeira página  com o título Trânsito caótico no centro, tece, no seu  interior, comentários em duas páginas, sobre os problemas ocorridos durante o dia anterior, exatamente quando começavam sérias restrições ao tráfego de passagem pela Avenida Rodrigues Alves, foco principal das obras do projeto Porto Maravilha. Como bem definiu o secretário Carlos Roberto Osório, houve uma coincidência infeliz por acontecer, no mesmo dia e hora, uma operação repressora a vans, na via preferencial de escape, Avenida Francisco Bicalho.

Cabe ao observador especializado e calejado no assunto tecer observações mais profundas pelo que está ocorrendo durante as grandes  alterações, necessárias e passageiras, para a implantação do mencionado e ambicioso projeto.

Por feliz coincidência, na minha leitura noturna, diária e rotineira, ao me deitar, enquanto espero pela chegada de Morfeu, estou lendo o livro Lost victories (Vitórias perdidas), que são as memórias de guerra do marechal de campo Erich Von Manstein, segundo o editor o mais brilhante  general de Hitler.

Digo feliz coincidência, porque existem pontos de comparação com o que sofre o secretário agora e o general durante a campanha no sul da Rússia, em 1942. Como lá, na guerra de fato, acontecem batalhas na guerra do trânsito. A atualmente realizada no entorno da avenida Rodrigues Alves é uma delas.

Na campanha do sul da Rússia, Manstein tinha sob seu comando, além do 11º Exército alemão, o III Exército Rumeno e, sobre este fato, se queixa amargamente do despreparo deste último, especialmente, se comparado com o soldado alemão. Queixava-se também da inexistência de tanques e de apoio aéreo para os seus soldados. Apesar de todas estas dificuldades, venceu e conquistou a Crimeia, ato que lhe rendeu a promoção a marechal de campo.

E aqui, na nossa batalha pela nossa Crimeia também isolada por ligações estreitas, como a real?

Em primeiro lugar, o marechal não se expunha, na “linha de frente”, como agora, corajosamente, faz o secretário, expondo-se a um desgaste que não é seu. O general comandante jamais fica na linha de frente, como faz, agora, repito, corajosamente, o secretário Osório, honrando o sobrenome do destemido general patrono da nossa Cavalaria.

A quem caberia, então, estar na linha de frente?

Pela errônea organização da administração do trânsito urbano do nosso país, ninguém. O cargo de diretor de Circulação, existente na organização europeia, da qual o nosso novo código copiou mal, ao transferir, corretamente, a responsabilidade do trânsito para as prefeituras, aqui não existe. Copiou, errado. Lá existe o diretor de Engenharia e o diretor de Circulação, sendo este último o responsável por fazer cumprir o que a engenharia determina e planeja, além de figurar na “linha de frente”.

Existe, é bem verdade, um diretor de operações, engenheiro, não podendo estar qualificado para exercer um papel para o qual jamais foi treinado ou preparado. Isto, segundo o mestre Alker Tripp, é privilégio e exclusividade do policial. Assim se expressou o autor inglês em seu notável livro Road traffic and its control, edição de 1936, quando se refere ao trabalho do engenheiro de tráfego: “Seu treinamento e ocupação são em relação ao planejamento, supervisão e construção; e, embora tenha estudado o tráfego de muito perto, como um destacado observador, ele não foi graduado na operação deste importante fator do urbanismo.Para suplementar as suas informações, no próximo passo, deve existir a polícia, especializada, sendo este o pessoal que lida, realmente, com os motoristas o tempo todo”.

O policial militar tem na sua formação a instrução de como operar, na rua, o trânsito e o tráfego ali existentes.

Como o marechal, o comando do trânsito também tem o seu contingente “rumeno” na figura da inexperiente Guarda Municipal, principalmente se comparada com o policial militar. Também lhe falta o apoio de “tanques”, na falta de comunicação para com os motoristas e o aéreo, na falta do helicóptero, para que possa ver em escala 1:1 o que está acontecendo no “campo de batalha”. Também, na minha época, tentaram me impingir um policiamento amadorista de uma Guarda Civil. Resisti, com o apoio do general comandante da Policia Militar, mantendo sob meu controle um grupo especializado, do então existente Batalhão de Trânsito, de policiais militares, para implantação de operações de trânsito, chefiado por um oficial superior de PM. Este grupo participava do planejamento com a minha engenharia, não raras vezes, opinando sobre os possíveis riscos e transtornos.

A supervisão das modificações, sempre as realizei, do alto, de helicóptero, comunicando-me com a “linha de frente”, por via rádio, e, com os motoristas, pela Rádio Nacional. Foi assim que o governo Negrão de Lima venceu a Guerra do Trânsito, enfrentando as inúmeras obras viárias do diligente secretário de Obras, Paula Soares, e da renovação da rede de transformadores da Light, ambas, como as atuais, necessárias para o desenvolvimento da cidade.

Que se forneçam os meios ao atual secretário para que ele, como o general Mainstein, também conquiste a sua Crimeia e seja promovido a marechal, deixando de se arriscar, como faz atualmente, na “linha de frente”, e sob a tirania da imprensa que apenas critica.

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - [email protected]