O mal que o tempo fez

Doutor Edgard Estrela, legendário diretor de Trânsito do Rio, então capital da República, nos idos de 30, 40 e 50, conseguindo a sua vitaliciedade, ao fim de mais de 10 anos na função, sempre dizia: “Não se administra o trânsito de uma cidade sem a colaboração dos taxistas”. Tive o privilégio de conhecê-lo, amigo que era de meu pai, e devo a ele a “infecção, permanente, do micróbio do trânsito”.

Quando fui indicado para diretor de Trânsito do governo Negrão de Lima, em 1967, tive que ser sabatinado pela diretoria do seu sindicato, na sua sede, em memorável debate em que saí aprovado. Por causa deste fato, normal num governo eleito pelo Partido Trabalhista, além da influência da classe no sucesso da administração, costumava dizer: “Fui diretor de Trânsito por concurso”. Ao assumir, criei uma folha semanal de informações sobre o trânsito, no que se refere às deficiências de sinalização, estado das pistas, localização dos pontos de ônibus etc — informações que deviam ser preenchidas em formulário próprio e encaminhadas pelo seu sindicato. Além de ser esta prática de inestimável contribuição para minha administração, dava aos taxistas um status de colaboradores do diretor de Trânsito.

Quando determinei que, nas vias de mão única, só pudessem recolher passageiros do lado esquerdo da via, acabando com a disputa de espaço com os ônibus, abrindo  caminho para  o tráfego de passagem, recebi deles a ponderação de que com chuva era impossível o motorista sair para abrir a porta para o seu passageiro  nos táxis Volkswagen, de duas portas. Fulminei a reclamação lhes fazendo ver que eu ficaria muito feliz que, com chuva, existissem táxis circulando —tal reclamação era absolutamente surrealista. Os taxistas passaram a trabalhar como determinado, “sem mais choro nem vela”, como diz o samba do grande Noel Rosa.

Por diversas vezes tive a alegria de receber em meu gabinete alguns dos taxistas, que vinham devolver objetos ou valores esquecidos por passageiros no interior de seus veículos.

Tomei conhecimento, em 1969 — visitando a sede da cooperativa de táxis de Colônia, na Alemanha  numa das inúmeras viagens que fiz àquele país para, humildemente, aprender com quem sabe — de um fato interessante:  um taxista foi avisado por rádio de que sua esposa entrara em trabalho de parto. Ao regressar ao Brasil, providenciei a formação da primeira cooperativa para funcionar como eu havia testemunhado. Assim nasceu a Cootramo, que passou a operar no Aeroporto do Galeão.

Posteriormente, graças à minha amizade com Roberto Osório, pai do atual secretário  municipal de Transportes, então dono de uma concessionária Volkswagen, consegui uma linha de financiamento para compra de táxis, que muito ajudou na padronização da frota. De lá para cá, a maldita ingerência política aumentou acima dos limites lógicos, baseados em estudos técnicos, a proporção de táxis por habitante. Começou, desde então, a desdita dos que ganham o pão dirigindo este importantíssimo meio de transporte público. Acrescente-se a isso os ilegais contratos de trabalho existentes entre os donos de veículos e seus motoristas.

Hoje vejo, com tristeza, a campanha na mídia escrita, com o título A ineficiência é amarela, com reportagens e entrevistas  condenando o procedimento dos taxistas. Li a entrevista do eficiente secretário Roberto Osório,  filho do meu amigo, que tanto me ajudou no passado, anunciando os seus planos e suas dificuldades para corrigir o que se deteriorou, enlameando uma classe honrada, a quem devo muito pelo que comigo cooperou. Por gratidão ao seu pai e do alto de minha experiência, permita-me aconselhá-lo: senhor secretário, esta luta não é só da sua Secretaria, é muito mais das autoridades trabalhistas, às quais deve ser pedida uma fiscalização rigorosa nos contratos de trabalho vigentes.

Verá que, como se diz na arma de Cavalaria, “Irão, os proprietários que os empregam, se sentir desconfortáveis na sela”. E tudo irá melhorar, na medida em que se separar o joio do trigo.

 

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - [email protected]