Entrevista adiada sine die 

Há pouco mais de 10 dias recebi um telefonema de Belo Horizonte, de um jornalista encarregado de um programa  local, de grande audiência, sobre a nova resolução do Contran, tornando obrigatório o uso do simulador, na formação dos novos motoristas. Infelizmente, na véspera da entrevista recebi gentil pedido de desculpas, dizendo-me que a matéria havia saúdo da pauta, por ter sido adiada, sem previsão de data,  a sua implantação, em virtude da deficiência de fornecedores do novo equipamento. O curioso é que já havia sido anunciado, no noticiário vespertino da TV Bandeirantes, a sua implantação, anunciando também a existência da empresa, única, que seria a fornecedora, fato estranho.

A feliz coincidência está no fato de ter eu sido lembrado, por um órgão da mídia mineira, quando, na última vez que nos falamos, o senador mineiro Itamar Franco, meu primo em segundo grau, haver me telefonado, em resposta a uma comunicação minha, solicitando uma providência do Poder Legislativo, a fim de minorar a carnificina que ocorre nas nossas péssimas estradas. Durante a nossa conversa telefônica, em que o senador ligou para minha casa, assustando a minha empregada que atendeu ao telefone, por se tratar de quem era.

Ao atendê-lo sugeria exatamente que se implantasse na preparação do motorista a obrigatoriedade do uso do simulador, não apenas na sua preparação mas, principalmente, como medida obrigatória num exame neste aparelho, por ocasião de ter confirmada a sua carteira da habilitação definitiva, com situações inusitadas de difícil desempenho do examinando.

Evidentemente, as situações escolhidas, tanto durante o curso de preparação como na prova, após um ano de habilitação, deveriam obedecer ao critério de escolha de especialistas na matéria, infelizmente não existentes nem no Denatran, e muito menos no Contran. Afinal, no simulador aparecem todas as situações que podem ocorres no trânsito, prevenindo o futuro acidente, que só acontece quando o motorista não sabe com proceder para evitá-lo.

Vale aqui  o registro do fato  de que, durante a nossa conversa, o senador haver me dito: “Não me chame de senhor, afinal, nossos avós eram irmãos”. Em resposta lhe pedi  permissão para narrar um fato que justificava o meu tratamento respeitoso, para com ele. Certa feita, em Paris, durante o verão de 1978, encontrei o ex-presidente Jânio Quadros, ao lado do edifício da Ópera, a caminho da Galerie Lafeyete, de onde o ex-presidente vinha. Fi-lo parar ao cumprimentá-lo, apresentando-me como filho do ministro Ary Franco, que o diplomara, quando eleito presidente, em 1961, e que passou a gozar de sua amizade. Ao final de curto diálogo, na despedida, pediu-me desculpas por, embora trajando terno completo, estar sem gravata. Ao lhe responder, tentando justificar o seu traje, que estávamos em Paris, era verão e eu estava de camisa polo e de calça jeans, retrucou-me: “Mas o senhor não foi presidente da República”.

“É o caso atual, senador, não posso tratá-lo de você, o senhor foi presidente da República”.

Tal história provocou-lhe riso e insistiu na quebra da cerimônia, contra-argumentando: “Você não era parente do Jânio”. Rendi-me e, infelizmente, uma semana depois desta conversa, internou-se gravemente doente, para não mais se recuperar.

Nesta medida salutar, é preciso ter-se cuidado, uma vez que o Contran é, historicamente, um órgão lobista, com raras exceções de algumas gestões.

Na pesquisa solicitada por Itamar (já agora, por ele, desobrigado da cerimônia), encontrei uma empresa sediada em Curitiba, que possuía uma representação deste equipamento.

Para que haja transparência e ausência de qualquer favorecimento, não deve haver concorrência e, sim, estabelecido o currículo mínimo, para a instrução  básica, selecionadas suas aulas, como já disse, por especialistas, todos os representantes cujos equipamentos preencham as exigências, devem estar autorizados a fornecê-los.

Desejo que o “sine die” seja findo em breve e que o trânsito brasileiro tenha esta importante melhoria na preparação dos seus motoristas, até como homenagem ao último projeto, não consumado, de meu querido e saudoso primo ex-presidente Itamar Augusto Cautiéro Franco..

 

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - [email protected]