Problemas ou situações? 

Esta separação das duas circunstâncias, agora suscitadas, eu aprendi numa excursão pela Grã-Bretanha. O guia, escocês, no início da jornada, esclareceu: “Neste nosso tour não teremos problemas mas, sim, situações, e eu serei capaz de resolver qualquer uma delas”. Observando o que a mídia noticia, o que ela considera problemas no nosso trânsito pode e deve ser chamado de situações, um bom e experimentado técnico será capaz de resolver qualquer uma.

Motivou-me tratar deste assunto a matéria na mídia denunciando o estacionamento irregular dos usuários dos hotéis, na orla marítima, muito especialmente, em Copacabana.O interessante é que ninguém enfoca aquele evento suburbano por excelência, de uma feira livre, que ocorre, durante a noite, no calçadão do centro das pistas da avenida mais sofisticada do Rio, a Atlântica.

Uma das vantagens da idade avançada é o conhecimento histórico que se adquire. A Avenida Atlântica sofreu a sua obra monumental de alargamento, no governo Negrão de Lima. A boa estrela do governador fez com que, em seu governo, os titulares de vários cargos de conflito na sua ação fossem ocupados por colegas do colégio marista e, como tal, eles discutiam, se insultavam, mas não brigavam, se entendendo no final. Foi assim com a Secretaria de Obras, o Detran e o DER. Meu Deus, como discutimos e como, ao final, quando havia o sucesso do que se realizava, nos cumprimentávamos, por ofício, encimado com as iniciais V.J.M.J., que se colocavam no alto da página dos trabalhos do colégio marista e que significavam: “Viva Jesus, Maria e José”.

Por ocasião do alargamento da Avenida Atlântica, o Detran sugeriu que, no projeto, o calçadão junto às edificações fosse bem alto, impedindo o acesso de veículos. O acesso aos prédios seria feito por uma via interna, junto às edificações, com duas faixas permitindo a ultrapassagem, quando dos desembarques, na suposição de que o motorista não corre na rua onde mora. Quanto ao acesso aos hotéis, exatamente como está feito. Para o canteiro central, largo para permitir os retornos, um vasto estacionamento, amenizado com paisagismo, a fim esconder os carros estacionados, como se vê nas cidades praianas do Mediterrâneo. Junto ao meio-fio, nas pistas de rolamento, só bainhas para paradas de  ônibus. Nenhum estacionamento, a fim facilitar o escoamento dos fluxos de tráfego.

Não foi aceito. Perdemos a briga. O resultado? Um enorme estacionamento sobre o calçadão que durou até a nossa volta, no governo Faria Lima, quando eliminamos este abuso. Mas, e os hotéis, com farão? É uma situação de fácil solução quando se sabe.

Os canteiros centrais existentes em várias vias de tráfego intenso são o que restou do outrora “passeio de cavaleiros”, para exatamente se andar a cavalo. Nunca para pedestres andarem ou se fazerem feiras de vendas de bugigangas. Tanto é assim que a lei permite que a autoridade de trânsito regulamente, nestes locais, estacionamento, como fez no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas em frente ao Clube Piraquê.

No caso da situação dos hotéis, poderão criar privativos nos estacionamentos existentes hoje junto ao meio-fio, alugando-os aos hotéis ou, o mais prático, criando no calçadão central, subutilizado, áreas fronteiras aos hotéis, para suprir a falta hoje existente, que os obriga a atrapalhar o tráfego dos pedestres, com o estacionamento nas calçadas em sua frente. Cortes para esta necessidade em marcha a ré, a fim de facilitar a saída no  sentido do tráfego e em ângulo de 30 graus, privativos dos hotéis e com a obra paga pelos mesmos.

Está resolvida a situação que nunca se constituiu um problema, como me ensinou, em 2002, o meu diretor de excursão ("tour director") e não guia, com também fazia questão de enfatizar. 

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - [email protected]