Infração gravíssima do Contran

Vejo, decepcionado mas não surpreso, a notícia de que o  Contran resolveu aliviar as exigências do nosso Código de Trânsito Brasileiro, facultando aos Detrans a  substituição das multas sobre infrações, leves e médias, por simples advertências. Digo que não me surpreendeu, porque conheço, por experiência própria, fruto de consultas, o quão distante está o órgão máximo do Sistema Brasileiro de Trânsito dos problemas que o afligem e o tornam  caótico.

Na introdução do meu livro sobre o Código transcrevo a opinião do então presidente do Contran, um dos pais do excelente novo diploma legal, quando declarou o seu pessimismo, em relação a ele, que entrava em vigor, mercê das mazelas existentes nos Detrans, as quais eu já enfrentara.Espero que os leitores se recordem de que, ao entrar em vigor o novo Código, o número de acidentes diminuiu até que estranhos resolvessem seguir a máxima que eu sempre repetia:  “O grande mal é que é muito fácil fazer-se política com o trânsito”.

Transformar multa em advertência? Afinal, em última análise, o que é a multa senão uma advertência acoplada a uma punição pela falta? Jamais, pelo menos no meu tempo de infância, nossos pais nos puniam sem nos advertir do porquê. Henry Barnes, legendário diretor de Trânsito de Nova York por oito anos, introdutor do sistema de mão única nas avenidas da ilha de Manhatan, à exceção da Park Lane,costumava dizer: “Era incompatível ao bom administrador de trânsito o comportamento do bom moço”. Infelizmente, aposto que os administradores do Contran nunca ouviram falar de Henry Barnes, quanto mais lerem o seu livro de memórias, com o genial título A história de um homem com um olho verde e o outro vermelho. Felizmente, deixaram ao critério dos Detrans estaduais a aplicação deste prêmio pelo péssimo comportamento dos nossos motoristas, um dos mais indisciplinados do mundo.

É preciso também que os administradores se lembrem de que o CTB tem como propósito prevenir. Um excesso de multas, aliado a um número insuportável de acidentes, traduz o mau desempenho de uma administração. E, por falar em acidentes, o meu último artigo, em que analiso o inaceitável acidente com um ônibus, resultou numa volumosa correspondência eletrônica para mim, aliada a um grande número de “cartas dos leitores” num outro matutino.

Acrescento às medidas que foram tomadas por mim, quando responsável pelo trânsito  do Rio, para domar os ônibus, uma definitiva, que não tive tempo de adotar mas que resolveria, de vez, o problema dos abusos de velocidade dos ônibus em mau estado de conservação quanto a pneus, freios e suspensão, que é a retirada do seu para-choques dianteiro, a exemplo do que ocorre  em Londres há mais de meio século.

Os da minha geração se lembram de uns ônibus que, na década de 40, foram importados da Inglaterra, sem para-choques dianteiro. Esses coletivos, em que o motorista ficava isolado na sua cabine e, dado o seu formato dianteiro, com meio para-brisas, receberam o apelido de Camões.

É esta a minha sugestão: a retirada do para-choques dianteiro. Duvido, no entanto, que tenham coragem de a implantar, embora ela traga “o bem de todos e a felicidade geral da nação”, como diria dom Pedro I, ilustre compatriota de Camões.

 

*Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - [email protected]