Uma grande recompensa

Em 1964, quando da eleição, por maioria absoluta, do embaixador Francisco Negrão de Lima para o governo do estado da Guanabara, eu, embora ainda no serviço ativo da Marinha, como capitão de fragata, preparava-me para ser o seu diretor de Trânsito, graças ao interesse da deputada, do PTB, Yara Vargas. Como a eleição dos governadores da GB e de Minas Gerais aconteceu graças à coligação do PSD e do PTB, isso motivou o Ato Institucional nº 2, que extinguiu os antigos partidos políticos. Apesar deste fato, do PTB recém-extinto, continuavam seus antigos membros, com grande influência nas nomeações dos cargos do novo governo. Por este motivo, jamais tive dúvidas da minha nomeação, tão logo passasse para a reserva. Dificuldades financeiras me obrigavam a deixar a minha carreira, até porque eu servira ao governo deposto, do presidente João Goulart, como oficial de gabinete do ministro da Marinha, almirante Araújo Suzano, e temia pelo meu futuro.

Nos meus estudos e pesquisas preparatórios, causava-me espécie a existência de um vasto estacionamento, cercado por defensas de péssimo gosto, ocupando as pistas centrais da Avenida Presidente Vargas. Era uma agressão, em termos urbanísticos, pelo seu aspecto rudimentar, ocupando a mais importante artéria da cidade, embora se tratasse de medida correta sob o enfoque de engenharia de tráfego. O carioca, que não perdoa, apelidou de “currais” os novos estacionamentos. Durante os fins de semana, quando eles ficavam vazios, apareciam no seu piso as manchas de óleo dos veículos que os haviam utilizado e, o pior, aconteciam ali peladas de futebol, entre moradores locais, atuando sem camisa. Tudo isto ocorria junto à Avenida Rio Branco e, a pouco mais de 500 metros da estação de desembarque do porto do Rio, porta principal de entrada marítima do Brasil. Foi de minhas primeiras medidas modificar este estado de coisas, diminuindo a sua largura, liberando duas faixas de rolamento, em cada sentido, permitindo uma melhor filtragem de tráfego e dando-lhe um acabamento paisagístico condizente com a dignidade da cidade. O pior de tudo era o emprego de jovens estudantes como operadores da área, contrariando a prática mundial de se utilizar nesstas atividades ex-combatentes, pessoas da terceira idade e deficientes físicos.

Por causa deste absurdo, certa feita perguntei a um ancião que exercia o controle do estacionamento do velho Aeroporto do Galeão a sua opinião. A sua resposta marcou-me profundamente: “Nenhum deles tem os cinco filhos que tenho de sustentar”.

Por causa desta resposta estabelecemos a lógica, propusemos a criação do sindicato de guardadores autônomos, complementando  a sua associação. Até há bem pouco tempo, em sinal de gratidão, tinham o meu retrato, em lugar de destaque, na sede da sua associação. Não sei se ainda está. Afinal, já lá se vão mais de quarenta anos...

Mas o que me fez escrever sobre este episódio, tão distante no tempo, foi uma conversa que aconteceu, outro dia, aqui na Barra, onde resido, quando estacionava o meu carro. O guardador, de cabeça branca, contrastando com sua pele escura, reconheceu-me e saudou-me: “Como vai comandante, meu padrinho?”.

Ao que me fez responder: “Bem, apesar de minha idade avançada e da perda recente do presidente eterno do sindicato de vocês, o meu querido amigo José Vieira, homem de absoluta integridade moral”. E acrescentei: “Tive a feliz oportunidade de, quando no cargo de diretor de Trânsito, comparecer a diversas formaturas de filhos de guardadores que se tornavam doutores”.

Foi quando o meu interlocutor me surpreendeu ao dizer: “Meu filho é oficial de Marinha”.

Surpreso e emocionado, perguntei-lhe:  “Ele está feliz?”

“Ele e eu. Consegui, guardando automóveis, fazê-lo membro de uma das mais dignas instituições do Brasil”.

Como escreveria o saudoso Millôr Fernandes:  “Pano rápido, encerrando a cena”.

 

* Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - [email protected]