O transporte à deriva ou encalhado?

Com a primeira parte do título, sem a dúvida de estar encalhado, o jornal O Globo comentou o lamentável acidente, com vítimas, num catamarã que liga Charitas, em Niterói, à Praça 15, no Rio. Quando da criação deste novo polo de transporte de iniciativa do saudoso prefeito João Sampaio, eu lhe disse, ao cumprimentá-lo pela iniciativa, que ele havia mudado o “metabolismo” do tráfego de Niterói, na medida em que evitou, com esta obra a ida de inúmeras pessoas, incluindo automóveis, até a vetusta estação das Barcas, ponto de referência do Centro da cidade. 

O fato de haver acidente, com feridos num transporte marítimo, em plena Baía de Guanabara, em dia claro, sem nevoeiro, nos faz atingir, no setor de transportes, o “fundo do poço”. Já basta o que ocorre na distribuição das linhas de ônibus no Grande Rio, que uma vez o prefeito Conde tentou ordenar, contratando um estudo técnico pela Coppe, que não saiu do papel. O Rio é a única cidade do mundo que implantou um metrô e não diminuiu ou reordenou as suas linhas de ônibus. O que ocorre nas avenidas Rio Branco e Presidente Antônio Carlos, em termos de circulação de ônibus, é de fazer “corar um frade”.

Tenho pena do denodado e competente secretário municipal de Transportes na sua luta para criar corredores exclusivos para agilizar o transporte por ônibus e na criação de indicação eletrônica sobre o tempo de viagem para os diversos destinos. Infelizmente, o trânsito em si não tem problemas, ele apenas reflete como tela de cinema o “filme de horror” que é a situação do nosso transporte público. Sem uma verdadeira “revolução democrática”, por decisão do prefeito, em prol do bem do povo usuário do transporte, não teremos nunca o direito, eu diria até constitucional, de dispormos de um “orçamento de tempo” previsível para o nosso ir e vir no tráfego, para qualquer ponto desta cidade.

Outro dia, como sempre faço, e não fazia há muito tempo, estacionei meu carro na Cinelândia, naquela garagem subterrânea, e fui pegar o metrô para me deslocar até a Rua da Alfândega. Não pude embarcar no primeiro trem, por estar lotadíssimo. Após longa espera, pude embarcar no que se destinava à Praça Saens Peña, onde me acomodei, em pé. Isto aconteceu por volta das 15 horas, imaginem o que ocorre nas horas de pico.

Estes são exemplos da impossibilidade de se devolver ao automóvel a sua condição original de carro de passeio e não a de transporte individual prioritário.

Triste pelo que ocorreu no transporte marítimo no interior da Baía de Guanabara, principalmente porque desde 1997 — quando defendi o transporte marítimo utilizando o mar aberto, por overcraft, embarcação que se desloca sobre um colchão de ar, sem balanço portanto, para a Zona Oeste, em artigo aqui, no JB — sempre o considerei um transporte limpo, confortável, seguro e rápido. No entanto, deve-se considerar que o transporte por mar é uma questão de cultura. Considerando o que ocorre com a nossa educação e cultura, tudo o que acontece no transporte e, por via de consequência, no trânsito, está de acordo com esta triste constatação.