Rio: homem não sabe onde mulher e filhos foram enterrados

RIO - Não são as pernas inchadas e feridas de Cláudio Pereira Coelho, 40 anos, que doem. Ele se levanta com dificuldade da cama de um abrigo improvisado em um laboratório abandonado na comunidade de Prainha, na periferia de Nova Friburgo, mas clama por outro motivo. "Eu vou achar eles. Eu vou onde eu tiver que ir para achar eles", exclama com a voz engasgada.

Na madrugada do dia 12, Cláudio escutou um barulho. Estava perto das 3 horas. Chovia demais e ele estava atento. Ouviu gritos e decidiu abandonar a casa com sua esposa, Adriana, seus dois filhos, Aleff, 16 anos, e Franciele, 14, e sua sobrinha, Samara, 12. Não deu tempo.

Aleff estava junto a Cláudio, com a cabeça encostada no seu ombro esquerdo. Adriana estava com a cabeça sobre a barriga do marido. Estavam todos presos. "Adriana, onde está a Franciele?", perguntou Cláudio. "Está aqui, estou segurando ela", respondeu. Estavam todos presos. Minutos depois, Adriana disse: "Cláudio, eu acho que a Franciele está morta". Com as pernas presas, Cláudio pedia por socorro. Com os braços soltos, segurava Adriana e passava a mão sobre o rosto de Aleff para limpar a lama que temia em escorrer.

O casal conversava. Até que Adriana disse que não aguentaria o peso. Cláudio sentiu o corpo da esposa tremer. Adriana não voltou a falar. Aleff continuava com o pai. Pedia para ele o salvar.

Eram 10h quando a família foi localizada. Quem estava em cima dos escombros era a mãe de Cláudio. "Quando a gente tirou as coisas de cima deles eu vi meu neto. Ele estava com uma perna para um lado e outra para o outro". Tiramos o menino, mas ele morreu nos meus braços", contou a avó.

Depois que Cláudio foi socorrido, ela ajudou a limpar os corpos dos netos, da neta e da nora. Ela conta que entregou os corpos identificados para que fossem levados ao IML. No dia seguinte, quando foram buscá-los para preparar velório e enterro, não conseguiram encontrar. Os corpos não estavam em nenhum dos locais indicados pelos bombeiros. Nove dias após a tragédia, a família ainda não sabe onde Aleff, Adriana e Franciele foram enterrados.

Além de ter perdido toda a família no deslizamento que cobriu sua casa, Cláudio também carrega a dor de não poder dar um enterro digno para eles. Ele diz que não vai descansar enquanto não descobrir para onde os corpos foram levados.

Sérgio Coelho, irmão de Cláudio, ajuda a coordenar o abrigo onde o irmão está. É a maneira que encontrou para lidar com a perda de sua filha Samara, 12 anos. O corpo de Samara, que estava na casa de Cláudio, foi retirado dos escombros apenas três dias depois da tragédia. "Nosso mundo acabou. Agora nos resta ficar aqui e ajudar", disse.