Que gênio é Kissin!

Crítica do recital do pianista Evgeny Kissin

Foi uma noite abençoada em todos os sentidos. Sempre  me lembro quando a empresária Myrian Dauelsberg trouxe o pequeno Kissin,de apenas doze anos,vindo ao Rio de Janeiro com sua mãe e sua professora,quase não se podia falar com o virtuose,e era mesmo, o da época.

Kissin cresceu sempre na sua genialidade técnica e absoluto conhecimento de como se toca bem o piano.O destino trouxe Kissin há três anos ao Rio para um recital,mas quando ele acabara de desembarcar na cidade soube no próprio aeroporto que seu pai tinha tido um problema de saúde e ele deveria voltar aos Estados Unidos,o que fez Kissin esperar o próximo vôo e retornar aquele país,para então ser informado da morte do Pai. Kissin chegou e para coincidência do destino desta vez foi minha Mãe quem partiu. Mesmo com a dor que os momentos trazem,fui ver meu querido tocar. Começou o programa com a Sonata nº10 em Dó Maior K-330 de Mozart que beleza de estilo e interpretação,sem nenhuma gota de romantismo,fato que é sempre bom pontualizar,porque Mozart não conhecia o romantismo,o modernismo e o desenvolvimento de estilos,claro, mas nós conhecemos hoje e ainda existem pianistas que executam Mozart com gamas de romantismo inconcebíveis para o estilo.Uma verdadeira aula de como se executa Mozart.Segunda obra do programa a Sonata nº23 em Fá Menor Op.57,também conhecida como “Appassionata” cujo começo foi traduzido com um mistério digno de grandes paixões. O domínio do texto,leitura clara e verdadeira fizeram a platéia delirar sobretudo com o Andante,segundo movimento da obra,lembrado na primeira variação,sobre o tema original exibido com um tratamento sonora de de altíssima qualidade e seus invejáveis pianíssimos.A exuberância do terceiro movimento com os contrates que estão no texto e Beethoven escreveu,e às vezes são esquecidos,reafirmaram a belíssima performance que o público agradeceu com uma grande ovação.

A segunda parte do programa começou com os Três Intermezzi Op.117 de Brahms,uma das mais profundas páginas do compositor e muito intimistas. Kissin tem um poder imenso de concentração e seu maior segredo é seu mundo interior,ele próprio se blinda em uma redoma que nada o atinge na sua missão de genialidade. A beleza da profundidade,a seriedade,o respeito ao compositor e a si mesmo,como intérprete,me fazem admirar cada vez mais esse gênio que é Kissin,desde adolescente,só que agora Kissin encontrou o amor e a dona de seu coração é a linda Karina,que vibra e se emociona com a arte de seu amado,fato que pude testemunhar,pois estava com ela na frisa. Para finalizar a noite Granada,Cádiz,Córdoba e Astúrias de Albéniz,seguido de Viva Navarra de Joaquin Larregla. Como Kissin deslumbrou com seu conhecimento da música espanhola,seu mundo é celestial,toques belos e com a magia que a execução requer,imensa palheta sonora,o texto de Albéniz com seus matizes de emoção,não teria melhor tradução. Após ovações e mais ovações,a platéia foi brindada com quatro extras.

Agradeço a paz que Kissin deu ao meu coração sobretudo com sua execução de Brahms e sem sombra de dúvidas Kissin sempre foi um gênio e hoje é um deslumbrante pianista,simplemente impecável. Vida longa