O universo de John Cage pelas mãos de Claudio Dauelsberg

O festival Multiplicidade  foi idealizado pelo comunicador visual Batman Zavarese, curador do evento, que homenageia nesta 8ª edição de 2012 o compositor americano John Cage, em seu centenário de nascimento, trazendo ao Rio de Janeiro integrantes do Media Lab SARC (Sonic Arts Research Center),de Belfast, na Irlanda do Norte, que vem a ser um centro de pesquisas fundado e dirigido pelo compositor alemão Karlheinz Stockhausen. O festival, que termina dia 6 de dezembro, é pautado por espetáculos de arte digital e música avançada,sendo um dos mais importantes no país. 

Na Europa e nos Estados Unidos é comum este tipo de espetáculo, que geralmente acontece  em salas de concertos pequenas, acolhedoras, com uma penumbra agradável e que estimula todos os níveis de criação auditiva e visual, desenvolvidas para os que estão acostumados com este universo, e extremamente sedutoras para os que são apresentados pela primeira vez a este tipo de programa. 

O auditório do OI Futuro, onde foi realizado o evento, é perfeito para receber o concerto, acolhedor e muito bem estruturado. Com poucas cadeiras, muitas almofadas vermelhas no chão e  paredes escuras, era o cenário ideal, tendo pessoas deitadas nas almofadas, outras sentadas e ainda outras deixando a mente livre, que foi o meu caso. 

A PianOrquestra criada pelo pianista Claudio Dauelsberg é um exemplo de conjunto que deu certo. Claudio sempre soube como criar e dirigir, da maneira mais sofisticada, a preparação do piano com vários tipos de parafusos, linhas de nylon, sandálias havaianas e muitos pequenos objetos que propiciam a pesquisa de  processos sonoros. A música indeterminada é abordada, isto é, são elementos da música que são decididos, muitas vezes, na hora da execução. No palco, 16 mãos e dois pianos preparados, navegando pela música do próprio Claudio Dauelsberg, Gyorgy Ligeti, Pedro Rebelo, Arvo Part, e,claro John Cage. Vários efeitos visuais foram gerados pelo design visual Justin Yang, e foram projetados na parede ao fundo do palco. Ora cores lindíssimas, ora efeitos gráficos, sempre inspirados nas partituras de John Cage, e o mais interessante para o público que não conhece a construção de um piano é a possibilidade de ver projetado na parede o que está acontecendo no interior do instrumento, pelas mãos dos artistas, na hora da realização e da criação. 

Tudo é rigorosamente ensaiado, é uma improvisação, digamos aleatória, mas muitíssimo bem controlada, além da sincronização ultra precisa. Para os que não são acostumados a ler música, a notação destas partituras é, às vezes, muito rigorosa, com ícones gráficos navegando por processamentos eletrônicos que exploram novas texturas, mas que também viajam por tempos musicais que são simbolizados por cores. Não sou purista, no sentido de quadratura, e deixei meu coração aberto e meus ouvidos atentos para novas sonoridades. Às vezes fechava meus olhos para ver se novas emoções eram sentidas e, apesar dos decibéis elevados, senti uma inovadora vontade de ouvir tudo de novo. Claudio transmite tanta paz, sobretudo quando senta ao piano e toca improvisando ou não, que saí do concerto com uma energia muito revigorada. Presenciei novos resultados de pesquisas, um profissionalismo exemplar e a certeza mais do que verdadeira que, quando se quer, é possível amar Bach, Beethoven, Brahms somente para citar os três “B” da música clássica, e se deixar encantar pelo mundo da música eletrônica tão bem produzida e realizada por Claudio Dauelsberg e seu grupo.

O BRAVO da coluna ao sofisticado e positivo concerto.

Site oficial do festival: https://www.multiplicidade.com/2012/