E agora, o que se espera?

O assunto mais importante relativo ao trânsito, na semana que passou, foi o reajuste da classificação das multas quanto à sua gravidade, e o aumento de seu valor. Supondo que este reajuste tenha sido apenas com o propósito de diminuir o número de acidentes e aumentar a segurança, e não a arrecadação, o que esperam os homens de Brasília, do Denatran?

Como único comentarista do assunto categorizado da imprensa brasileira, por mais de meio século, aliado a ser o único especialista que aprendeu a filosofia básica para se administrar o trânsito, desejo fazer algumas considerações. Sou, talvez, o único crítico ao caráter punitivo apenas do Código de Trânsito, em vez de, ao menos, tentar ser educador, ou seja, modificador das reações do motorista, que influenciam o seu comportamento. Antes, porém, espero que estas profundas modificações tenham se baseado no resultado de pesquisas, e não na base do palpite. A fiscalização da Lei Seca continua “capenga”, atribuindo, por suposição, que o índice do “bafômetro” do teor alcoólico alveolar, possa influir no comportamento do motorista. Falha ao omitir qualquer prova prática de controle do carro. A lei é clara quando diz: “dirigir sob efeito do álcool”, reação esta que varia de pessoa para pessoa.  A tolerância zero é um abuso de autoridade, facilmente comprovado pelo fato de que, nos fins de semana, todos bebem no almoço fora de casa, e não existe registro de acidentes provocados por ingestão de bebida alcoólica. Ouso arriscar que já existe uma mentalidade de beber pouco às refeições, entre os motoristas.

Mas vamos à orientação básica para se ter sucesso na administração do trânsito, cujo excesso de multas denota o seu fracasso. Sir Alker Tripp, ilustre desconhecido para as atuais gerações de administradores de trânsito, principalmente do Denatran, técnico de origem policial, da Scotland Yard, diretor de trânsito de Londres na década de 30, escreveu um livro fundamental, intitulado Road Traffic Control, jamais traduzido, em que estabelece a premissa  básica para o trânsito: “Não se deve impor nada por restrição legal, quando se pode fazê-lo por medidas construtivas.” Pois é exatamente o que tentam agora, os administradores, ao elevar o valor das multas sem a tentativa, já por mim sugerida, baseada no efeito do “cartão amarelo” de advertência no futebol, capaz de coibir o mau comportamento de algum jogador, em vez de expulsá-lo.

A sugestão é simples, embora diminua, de muito, a arrecadação pelas multas indicadoras de má administração. A cada infração Média, um período de carência de dois meses, sem nenhuma infração, somente tolerável as Leves, para te-la anulada. O mesmo acontecendo para as Graves, para um período de três meses e para as Gravíssimas, de quatro meses. Já imaginaram o efeito coercitivo e educacional desta modificação educacional e construtiva?Ainda mais agora, com o reenquadramento das infrações e reajuste de preços?

Como diz o título: “ O que esperam os homens do Denatran”, em prol da diminuição de acidentes e mais disciplina, num trânsito urbano ainda controlado por sinais de tempo fixo, ignorando o real perfil do tráfego, incentivando a velocidade pela maneira errada com que entendem sincronização? Realmente acreditam que este reajuste irá resolver o caos do trânsito urbano, com um grau baixíssimo de mobilidade, cujo problema não enxergam e como tal não veem a solução?

Enfim, quando escrevi meu volumoso livro de memórias, sobre a minha experiência de mais de quatro anos a frente do Detran da Guanabara, a fim de enfatizar os inúmeros problemas com os quais me deparei, titulei-o  de “Eu na contramão “.Pois bem , agora ao reler este artigo,  verdadeiro desabafo, vejo que continuo na contramão dos poderosos. 

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade.
Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.
Saiba mais