Uma situação embaraçosa

Vejo na grande mídia que continuam a tatear, como se estivessem caminhando no escuro, os técnicos do trânsito da Prefeitura, em relação à regulamentação do delicado tema da carga e da descarga de mercadorias e de bens de consumo na cidade do Rio de Janeiro. Durante o período dos Jogos Olímpicos, a restrição de circulação para os veículos que fazem esse importante serviço foi drástica. Seguiram o lema: ”É melhor prevenir do que remediar.” Agora, anunciam um novo decreto modificando o anterior, pós-Olimpíada e, felizmente, prometem criar uma comissão para regulamentar esta atividade. Esta situação só se resolve apoiada na tecnologia regida pela engenharia de tráfego e, sobre este aconselhamento, vou contar uma historinha:

Ao assumir o Detran pela primeira vez, em 1967, iniciava a minha missão “pisando em ovos”,  face da enorme responsabilidade de tentar conviver e, se pudesse, superar a administração do governo anterior, do brilhante coronel Fontenelle. Eu trazia apenas os conhecimentos adquiridos com a policia de tráfego holandesa e estudos em dois livros básicos para a gerência do trânsito, ambos ingleses dos mestres Alker Tripp  e  Collin Buchanan. Da cultura americana, onde nasceu em 1926 a engenharia de tráfego, absolutamente nada.

Foi quando, menos de dois meses após minha posse, recebi dos Estados Unidos um livro notável e fundamental. Publicado pelo Instituto dos Engenheiros de Tráfego dos Estados Unidos, intitulado: “Traffic  Engeneering  Handbook, ou seja “Manual de Engenharia de Tráfego”, vinha com uma dedicatória carinhosa e de estímulo: “Ao prezado Celso, oferta de um carioca que acredita no seu sucesso”, assinava o Adido Naval brasileiro, em Washington, almirante Floriano Faria Lima. Meu querido amigo e meu primeiro imediato, quando eu dava os primeiros passos como segundo tenente e, muito me valeram seus ensinamentos, principalmente o seu dignificante exemplo.

Anos depois, esta nossa ligação, quase intima, quando ele, como governador me convocou para o Detran do novo Estado do Rio, no Governo da Fusão, iria contribuir para o meu pedido de  exoneração, vítima da inveja e do ciúmes de um secretário medíocre.

Naquele momento, em 1967, eu também enfrentava o descontentamento do comércio e dos lojistas exatamente sobre as dificuldades para o regime de carga e descarga, também, como agora, estabelecido por palpite, sem consulta, sem pesquisa, na base do “manda quem pode e obedece quem deve”. O presente americano chegava na hora certa porque lá estava, em seu capítulo 13, todos os ensinamentos técnicos de engenharia de tráfego sobre o assunto, incluindo gráficos e plantas de estações de carga e descarga. Foi o bastante para que Gerardo Penna Firme, meu genial diretor de engenharia, e eu criássemos um grupo de trabalho composto por todos os setores interessados no problema, presidido por um professor de urbanismo, José Arthur Fontes Ferreira. Realizou uma tarefa de consenso e de lógica tão boa que, ao término dos trabalhos, quem editou o manual contendo todas as regras do serviço de carga e descarga foi a Associação Comercial e, pasmem, foi a última vez que se realizou este estudo. Desde 1967 até hoje, NADA foi feito, virou uma “zorra total”. Vi também na grande mídia que a Firjan deu palpite no atual decreto(?). Quando no meu tempo o Diretor Geral do Trânsito o fazia com apenas Ordem de Serviço, pois tinha autoridade e competência de fazê-lo. Não vi nenhuma menção à Associação Comercial nem ao Clube dos Lojistas, os mais interessados nesta regulamentação do que a Firjan.

Não fiquem zangados ou aborrecidos os colegas que atualmente ainda detêm o poder de dirigir o trânsito do Rio. O que aqui escrevi não é critica ou reprimenda. É apenas um aconselhamento de quem já passou por esta situação e, como de hábito, enfrentou-a tendo como escudo protetor ou trincheira a razão da engenharia de tráfego. Como dizia uma publicação técnica da Philips, da década de 70:  “A ciência esquecida”.