Juventude rebelde

“São jovens estudantes batalhando pela educação e cuidando com amor do que é público. De forma organizada, cada um fazendo a sua parte e dando um exemplo para esse país.” Palavras de Marisa Monte ao visitar e cantar, junto com o cantor Leoni, para os estudantes que ocupam o Colégio estadual André Maurois, Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro, uma das 76 escolas cariocas ocupadas por estudantes. Marisa ainda ajudou a divulgar uma lista de alimentos e materiais de limpeza necessários para a manutenção do acampamento.

Comecei minha militância política no início dos anos 1970: movimento estudantil e Pastoral da Juventude. Resultado e consequência da militância estudantil: fui suspenso da Universidade por 30 dias no final de 1975 e expulso da PUCRS no início de 1976. E acabei enfiado num camburão da Brigada Militar numa manifestação estudantil em agosto de 1977 em Porto Alegre, levado ao DOPS da Avenida Ipiranga, devidamente fichado e fotografado (aliás, ficha e foto às quais nunca tive acesso, porque tudo teria sido incinerado a mando do ex-governador gaúcho Amaral de Souza).

A PJ (Pastoral da Juventude) foi a outra escola de formação política para muita gente naqueles tempos. Muitos cursos de formação continuada – o CETA, Centro de Treinamento para a Ação, entre outros -, Institutos de Pastoral de Juventude, com base na educação popular freireana e na Teologia da Libertação, uma juventude rebelde lutando por democracia, pelo fortalecimento da sociedade civil, por um mundo e um Brasil justos e igualitários. Do movimento estudantil e da PJ surgiram centenas, senão milhares de lideranças para os movimentos sociais nascentes, partidos de esquerda, parlamentos, governos populares, ONGs, em tempos de plena vigência da ditadura militar. 

Hoje, a juventude rebelde ressurge, às vezes quase como que do nada. Está aí, mais ou menos organizada, no Levante de Juventude, movimento recente surgido no Rio Grande do Sul, já espalhado por todo Brasil, só agora descoberto pela grande mídia, fazendo escrachos, envolvendo milhares de jovens em acampamentos, conscientizando e organizando a juventude que parecia adormecida.

Surge em manifestações quase espontâneas, como a acontecida no centro de São Paulo, chamada via redes sociais. De um momento para outro, milhares de jovens apareceram, dizendo que o impeachment da presidenta Dilma é golpe, reivindicando políticas públicas e democracia.

A juventude rebelde anuncia-senas ocupações de escolas em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Paraná, contra os governos que não dialogam, fecham escolas, impõem políticas educacionais de cima para baixo. As ocupações se espalham, sem presença de organizações estudantis, departidos políticos. Os jovens assumem plenamente seu papel de protagonistas, exigem democracia nas escolas, exigem democracia na sociedade, apuração da corrupção, como na ocupação da Assembleia Legislativa de São Paulo.

A juventude rebelde enfrenta a truculência dos governos sem medo, a repressão das Polícias Militares, chama os pais para fazerem parte de suas lutas, movimentam a comunidade escolar em torno de suas justas bandeiras de luta.

É o novo chegando à luz do sol. Onde vai chegar, o que vai construir, como saber ou adivinhar? Mas é esperança e futuro, com certeza. Como a juventude já foi tantas vezes ao longo do tempo e da história, são farol e luz: em 68 na França e no mundo, nas Diretas-Já,os caras pintados no Brasil no impeachment do Collor em 1992, e agora a favor da democracia e contra o golpe, fazendo a democracia acontecer na prática nas escolas e nas ruas.

Surgem novas formas de organização, como a Frente Brasil Popular, a Frente Povo Sem Medo, que superam a institucionalização de partidos, de organizações às vezes já cristalizadas ou até carcomidas, que se organizam de forma horizontal, propõem novas formas de luta, incorporam novos pensamentos e valores, pensam o Brasil e a sociedade à luz do tempo e da conjuntura, assim como a juventude rebelde. A democracia se reinventa. 

Nos meus 65 anos recém chegados, sinto-me renovado e novamente jovem e vivo, muito vivo. A história refaz-se a cada instante. Por isso, o impeachment que é golpe está longe de ser consumado. A juventude nas ruas e ocupando escolas, como bem disse Marisa Monte, ‘cuida com amor do que é público e dá um exemplo para o país’. Por mais que alguns queiram, não se derruba o futuro.

Diretor do Departamento de Educação Popular e Mobilização Cidadã

Secretaria Nacional de Articulação Social