A insanidade dos extremos

Vivemos um momento em que nos tentam impor uma posição ideológica extremada. Não temos a chance de solicitar uma ponderação, um caminho do meio.  Assim que exista essa tentativa, alguém pode começar a considerar um ato de covardia, de quem não quer se posicionar. 

Acontece que alguns querem e têm coragem de se posicionar fora dos extremos por simplesmente considerar essa atitude mais inteligente e sábia. 

Não há como considerar um único fator quando se fala de um ou mais seres humanos. Cada um é um e não temos como avaliar todos por alguns.  O ser humano é complexo e suas relações também são.

Querer simplificar, num gesto de redução do problema com uma solução paliativa, rasa, sem substância e, ao final, sem resultados de longo prazo, não resolve.

Dizer que um menor infrator ou criminoso é um demônio, é um dos extremos.  O outro é dizer que é um pobrezinho, fruto puro da desigualdade social.  Nem uma coisa, nem outra.  Ou melhor, em alguns casos uma coisa, em outros casos outra coisa, e em outros ainda, nenhuma dessas. Então, por que reduzir o assunto a uma fórmula pronta? Falamos de gente. Falamos de vida. E falamos de nós. O outro? Nem sempre.

Vejo amigos, conhecidos e familiares se tratando com violência por opiniões extremadas que não trazem um bom resultado por não haver bom senso e, menos ainda, consenso. Um não consegue ouvir o que o outro tem a dizer.  A sociedade vive em relacionamentos e trocas.  Se cada um vive a sua realidade dentro das suas convicções e não há espaço para essa troca, não há avanço.

Há algo a se pensar quando uma grande parcela da população não acredita nas soluções em cima da causa dos problemas. É a voz da urgência, do desespero, da desesperança. 

Há algo a se pensar quando uma parcela ainda enxerga as soluções em cima das causas, ainda acredita na solução definitiva ou mais abrangente, já que na causa se estanca o problema de forma mais eficaz do que na remediação. 

E as causas são variadas.  Não há como avaliar de forma simplista todas as causas para a violência.

O que precisa ser praticado diariamente é a ponderação, a capacidade de ouvir o outro, ainda que este esteja esbravejando sua ira contra nem se sabe bem o quê.  O que precisa ser praticado é a busca verdadeira de soluções e não um campo de batalhas onde um quer convencer o outro de sua verdade, e ninguém, de fato, tem a solução.

É tudo uma questão de aprender a respeitar.  Tolerância não é ser conivente.  Tolerância não é aceitar que o erro seja implantado e ficarmos passivos.  E afinal, onde está o erro?  O erro está em cada um, que não é perfeito.  Quanto menos se prender ao apego de suas opiniões e estar-se aberto a ouvir o outro lado, maiores as chances de conseguirmos, juntos, uma resposta ao nosso problema, que vem de milênios, desde que a humanidade passou a existir. 

A consciência do eu - separado do tu, ele, nós, vós e eles - é a grande vilã de toda a história da humanidade. E esta é tão poderosa que nos faz acreditar que é real.  Se pensarmos bem, saberemos que não.  Que vivemos em sociedade e, como sociedade, estamos dividindo espaços, crenças, mudanças, relações etc.  Que tal se conseguirmos nos esforçar um pouco mais para vivermos como todos nós esperamos? Afinal, só depende de nós mesmos. 

*Cláudia Gonçalves é educadora e empresária