Os limites

Pode a vida social ser hoje reduzida a um jogo em que regras de funcionamento testemunhem sua eficácia?

Sendo a vida social essencialmente relacional, pretende-se que organize a pluralidade humana, tentando impor uma ordem ao caos sempre possível, ou à violência latente entre os seres humanos.

O funcionamento da vida numa sociedade organizada em rede se faz segundo certos valores. Valores que instituem uma pluralidade de liberdades no espaço público ordenado, valores de justiça dando a cada qual o que lhe é devido nesse espaço. Valores legados pelas tradições constitutivas de uma sociedade democrática e depositadas nos códigos. Valores que se ordenam num sistema jurídico tecnicamente correto e respeitoso aos cidadãos, permitindo recurso contra eventuais abusos.

O direito tem por fim limitar a violência entre seres humanos, não só assegurar direitos individuais. O mais importante é que nós indivíduos estejamos convencidos dos benefícios por ele ocasionados. Aprendemos a inutilidade de atribuir a toda e qualquer pessoa um lugar cativo numa escala de valores.

Numa democracia, a hierarquia de valores é constantemente modificada pelo movimento da ação. Cada escolha só será legítima se continuar compatível com outras escolhas, outras prioridades, que só o estrito cumprimento das leis torna possíveis. Preferências individuais diversas só podem se articular entre si e serem objeto de escolha racional se a integridade dos procedimentos estiver assegurada.

A atual realidade social revela tanto as desigualdades quanto os limites de nossas solidariedades. Toda comunidade é, de alguma maneira, uma comunidade de escolha, resultado sempre precário de uma infinidade de escolhas individuais. Esse equilíbrio instável entre o indivíduo e a comunidade, entre a instantaneidade da escolha e a duração história, parece rompido com a globalização.

Os limites da interdependência aceita entre os europeus se estreitaram com a atual crise grega. Pois o mundo moderno é, ao mesmo tempo, o mundo da difusão do poder e o da mais extrema concentração.

 

 

 *Tarcisio Padilha Junior é engenheiro