Berlim: 25 anos sem muro

Lembro do rapaz que amarrou a noiva loura e linda debaixo do chassis do carro para não ser vista pelos soldados ao passar a terrível fronteira do muro de Berlim.  As fotos, publicadas em revista brasileira, mostravam seus cabelos louros que se soltaram do coque e arrastavam-se no chão, quase beijando as botas do soldado que pedia documento ao assustado noivo.

Lembro das fotos de pessoas que escalavam o arame farpado com risco da própria vida para passar ao outro lado.  Eram muitas, e o “muro da vergonha” representava para elas o obstáculo que as separava da liberdade.

Recordo com respeito e solenidade o suicídio do grande escritor húngaro Sandor Marai, autor de obras-primas literárias, tais como O legado de Ester e Confissões de um burguês, entre tantos outros. Meses antes da queda do muro, em fevereiro de 1989, o escritor suicidou-se sem deixar explicações. Talvez seu gesto possa ser compreendido se se levarem em conta todos os anos de esquecimento a que foi submetido pelo regime que oprimia seu povo e seu país, e pela falta de liberdade que tanto criticou a vida toda.

Lembro de tantas e tantas coisas.  Até que todas essas lembranças deságuam nas lágrimas de emoção de meu marido, alemão, diante de um aparelho de TV, no dia 9 de novembro de 1989, contemplando a festa que as crianças e os jovens realizavam sobre o muro — antes fronteira e prisão — agora porta aberta para uma ansiada liberdade. Deságuam como num rio manso, que por sua vez desaguará em um mar profundo e belo.

O mundo inteiro pôde saborear a visão de um povo que experimentava, pela primeira vez em muitos anos, o gosto da liberdade e o fim da carga de pesados grilhões. A queda do muro não simbolizou apenas a reunificação da Alemanha, mas também a dissolução dos regimes comunistas do Leste Europeu. Também o triunfo do capitalismo que, desfeita a balança de poder que o segundo mundo socialista representava, passou a flutuar sozinho nos céus da economia mundial, assumindo uma nova face rapidamente chamada de neoliberal.

Agora, 25 anos após esses eventos, pode-se lançar um olhar mais sereno e equilibrado sobre os fatos. À época, muitos setores da sociedade e das igrejas comemoraram.  Era a derrota do materialismo ateu, que tanto parecia ameaçar a estabilidade e a fé de povos e nações.  No entanto, rapidamente revelou-se igualmente a face sombria desta destruição.  As nações confinadas por trás da chamada “cortina de ferro” caíram inteiras no capitalismo e suas seduções.  Nem a católica Polônia escapou a esta conduta, deixando triste e desapontado seu carismático filho Karol Wojtyla, o papa João Paulo II, que certamente desempenhou um importante papel na derrocada do socialismo real.

Duas décadas depois, em 2009, o capitalismo triunfante em 1989 vivia talvez a maior crise de sua história. E o regime que se vangloriava da derrota comunista entrava em recesso de entusiasmo e se via desafiado a repensar-se.

No Brasil, além da queda do muro, a militância progressista sofria outra queda: a primeira derrota de Luiz Inácio Lula da Silva às eleições presidenciais. A militância sofria dois golpes ao mesmo tempo e, perdida e desorientada, ora entrava em depressão; ora buscava novas religiões compatíveis com a Nova Era, para encontrar novo sentido para a vida; ora entrava pelo caminho da ecologia, a fim de encontrar novos paradigmas para organizar o pensamento.

Vinte e cinco anos depois, agora em 2014, quem viveu viu.  Viu Lula ganhar as eleições em 2002 e seu partido caminhar já para 12 anos no poder.  Viu a Rússia de Putin dar ao mundo um espetáculo mimético, com outra roupagem, do tempo dos czares ou uma faceta repaginada do stalinismo.  Viu os Estados Unidos elegerem um presidente negro, elegante e democrata, que acaba de sofrer dura derrota no Senado, agora com maioria republicana.

No entanto, vimos, vemos e, se Deus quiser, veremos ainda nos próximos anos, para além desses 25, a humanidade lutar e clamar por liberdade e democracia, mesmo pagando duro preço para isso.   A figura do papa Francisco, que traz de volta o Concílio e a opção pelos pobres; o inconformismo da juventude, que em muitos lugares do mundo protesta e exige melhores condições e qualidade de vida para seus povos; o Prêmio Nobel da Paz outorgado a uma menina paquistanesa que guerreia sem medo e sem trégua pelo direito da mulher e de todos à educação, são penhores da esperança que nos habita na celebração destas bodas de prata com a liberdade.

Que celebrar o fim do muro equivalha a lutar pelo fim de todos os muros que separam o ser humano de seu glorioso destino: ser imagem do Deus vivo, livre e guardião da liberdade; humano sempre mais porque sempre mais refletindo a glória de Deus, que brilhou no rosto de seu Cristo.  Que venham mais 25. Mais 50.  Mais um século, dois, três. E que as crianças dancem e os jovens se beijem, e os pedaços da vergonha da ditadura e da opressão caiam destroçados sobre a terra, que é mãe de povos dignos que desejam vida, e vida em plenitude.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Departamento de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Simone Weil - Testemunha da paixão e da compaixão' (Edusc) e 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Ed. Rocco). - [email protected] rio.br  —