Anchieta Santo

Não sou teólogo e não tenho competência para tratar da canonização do padre Anchieta. Mas sou capixaba. Além disso fui juiz substituto na comarca de Anchieta. Invoco assim dois títulos para abordar este assunto que está em discussão: 1) a cidadania capixaba; 2) o fato de ter exercido a missão da toga na comarca e município que tem o nome do missionário. 

Comecemos pela cidadania capixaba. Todos os cidadãos deste estado nos sentiremos honrados com a canonização do Beato. Professemos a fé católica, ou outra fé, ou não professemos fé alguma, em nossos corações pulsará o orgulho de ter nascido neste pedaço de chão brasileiro se a causa da canonização for vitoriosa. Nosso estado é territorialmente pequeno, um dos menores da Federação, mas nos sentiremos um gigantesco estado quando pudermos proclamar nossa pertença ao estado de Santo Anchieta. 

A canonização é um ato solene, de grande valor simbólico. Mas, na verdade, independentemente dessa proclamação, na alma do povo capixaba já palpita, desde tempos imemoriais, a certeza de que Anchieta é santo, sempre invocado quando pedimos as bênçãos de Deus para o povo espírito-santense. A tradição popular registra milagres obtidos através de sua intercessão.

Vamos agora ao segundo ponto acima mencionado. Quando exerci a judicatura na comarca de Anchieta, tive sempre a consciência de que estava distribuindo justiça numa terra santificada pelos passos do Beato. Judicar naquela comarca não era o mesmo que judicar num outro território. 

Não proferi muitas sentenças naquela circunscrição judiciária. Mas num julgamento ali proferido, é possível que centelhas do Apóstolo do Brasil tenham me iluminado. Isto porque concedi habeas corpus a um pescador que manifestou o receio de ser preso. Essa concepção da serventia do habeas corpus para socorrer o simples medo de ser aprisionado, sem que houvesse qualquer fato concreto para justificar o pânico, não tinha precedente na jurisprudência. Remeti o caso para reexame da instância superior, por imposição da lei. A sentença foi confirmada por acórdão de que foi relator o desembargador Hélio Gualberto Vasconcellos. 

O governador do estado exerce suas funções no Palácio Anchieta, antiga sede do Colégio de São Tiago. A primeira ala do colégio foi concluída em 1587 pelo padre José de Anchieta, que veio a morrer dez anos depois e foi sepultado no altar-mor da Igreja de São Tiago. Anchieta ligou-se a nosso estado pela vida e pela morte. Por estas razões e por outras, a História convoca o governador Renato Casagrande a assumir a liderança da luta civil em prol da canonização. Cabe-lhe conclamar todas as forças políticas, acima das siglas partidárias, para que sejam um só grito: Anchieta santo.

*João Baptista Herkenhoff é juiz de direito aposentado e escritor. - [email protected]