Bater

Para que realmente serve a polícia? Este é o questionamento mais urgente para aqueles que querem agora ou futuramente entender o que dá força a constantes manifestações espalhadas pelo Brasil. Quem não lembra que foi depois de 13 de junho, dia de fria descomunal de policiais contra manifestantes (e imprensa) de São Paulo, que começaram a brotar mais e mais passeatas políticas pelo Brasil afora? Desde então, a imagem do funcionário público que tinha a imagem de defensor do cidadão contra a bandidagem passou a ser questionada. O motivo: a mesma pessoa que se entendia como “cidadão de bem” que queria reivindicar direitos passou a ser o bandido.

Se você é uma pessoa que, nestes meses, sentiu cheiro de gás lacrimogêneo ou foi atacada por balas de borracha por estar numa manifestação política e que ainda insiste no velho ditado “bandido bom é bandido morto”, você realmente não aprendeu nada. Não aprendeu que qualquer cidadão pode ser considerado bandido. Se um dia você já vibrou por ver um criminoso sendo espancado pela polícia, e se agora se viu sendo “tratado como bandido”, então não queira fingir que, de certo modo, você mesmo já justificou essa agressão ao naturalizar esse tipo de violência policial até na sua linguagem. Daí que voltamos à questão: a polícia serve a quem?

O policial está aí para seguir ordens dos seus superiores e dos superiores dos superiores. Se mandam bater, ou seja qual for o eufemismo, eles baterão. É uma hierarquia que ele não pode questionar. Para um, a polícia é a primeira e última lição. Seguir ordens não implica saber quem é o seu chefe nem tampouco que leis regem sua função. Por isso, o ato de bater de um policial militar não distingue o que é estado de direito ou ditadura. Alguém já ouviu falar em alguma debandada de policiais desertores logo após o golpe de 1964? Não, apenas mudaram o chefe, e continuaram seguindo ordens.

É triste pensar que hoje, quando presenciamos tantos abusos de policiais, se houvesse algum golpe, a lógica não seria outra. A polícia militarizada continua aplicando os mesmos instrumentos de repressão testemunhados em momentos sombrios da nossa história. Chacinas, execuções, torturas já fazem parte do cotidiano de muita gente em zonas mais pobres das metrópoles brasileiras. É uma situação pavorosa que, apesar dos flagrantes destes tempos, ainda não entrou na discussão nas esferas governamentais. Muito menos a questão da desmilitarização da polícia. Mas isso é urgente. A democracia real ainda aguarda. 

* Sergiano Silva é historiador.