Quem somos: o médico ou o monstro? 

“Aberrações, animais, psicopatas, têm que apodrecer na cadeia, diz a dona de casa. Ela acaba de saber sobre o assassinato cruel, a golpes de faca, de uma idosa na Zona da Mata, norte de Pernambuco (agosto/2013). Os assassinos foram dois rapazes de 19 anos. Na frente da televisão, o marido meneia a cabeça concordando. O filho adolescente comenta: “Tem que matar estes monstros”. É mais uma daquelas tragédias retratadas na mídia para a sensibilidade da plateia e para a execração dos assassinos, uma espécie de exorcismo de demônios, uma alivio que diz: “somos diferentes deles”.

O quão diferente é esta plateia dos assassinos que protagonizam a tragédia humana no cotidiano da mídia? Em que ela se distancia do garoto de 13 anos que, na versão policial, matou os pais, a avó e uma tia-avó e depois cometeu suicídio (agosto/2013)? Teria ele, um menino amável e familiar, semelhanças com o assassino do Realengo, que matou doze crianças numa escola do Rio em 2011, ou do maníaco que matou, em 1998, nove mulheres no Parque do Estado, em São Paulo?

O comportamento criminal na visão da psicologia resulta do desequilíbrio entre forças internas, processos decisórios e modelos de educação familiar. Este é o cenário que desencadeia a fantasia da trama em que o assassino é o protagonista principal. Perde-se a conexão com o real e precipita-se o personagem para o jogo perigoso de um mundo virtual, virtual igual a uma foto no perfil do Facebook, ou virtual como o herói Desmond Miles, o matador do game Assassins Creed, aquele das armas, facas e bombas.

É essa mesma psicologia que mostra o delito do crime como decorrência de pensamentos negativos pregressos, autoperpetuados numa forma distorcida de ver a vida, um funcionamento cognitivo de racionalização, justificação e minimização de atos praticados no sentimento de direito de praticar o crime. O personagem principal percepciona a informação vinculado a crenças desadaptativas, as que o levam ao crime.

Reforça-se o exorcismo da diferença, mas os “diferentes” estão por aí como o Sargento condenado por maus-tratos, agressão e humilhação a prisioneiros da prisão iraquiana de Abu Ghraib. Chip Frederik foi diagnosticado pelos psiquiatras como um homem de tendências sadias. Adolf Otto Eichman, o responsável pela logística de extermínio de milhões de pessoas durante o Holocausto, foi atestado como normal por seis psiquiatras.

Um experimento (1971) em que estudantes normais e inteligentes interpretavam papéis de reclusos e carcereiros teve que ser interrompido em Stanford para evitar uma terrível e inesperada tragédia. Em apenas seis dias, o jogo perigoso tornou-se tão criativo que castigos arbitrários e humilhações sexuais se tornaram assustadores.

Para o psicólogo social Philip Zimbardo, autor do experimento, “talvez cada um de nós tenha a capacidade de ser santo ou pecador, altruísta ou egoísta, bondoso ou cruel, malfeitor ou vítima, recluso ou carcereiro. Talvez sejam nossas circunstâncias sociais que decidam qual de nossos muitos modelos mentais, qual de nossos potenciais, vamos desenvolver.

É certo que a psicologia vai mais além, mas não deixa de trazer frio na espinha a resposta que advogados apreciam em suas exibições nos júris: “toda pessoa é muito honesta até o momento em que deixa de ser.  Para o doutor Jekyll, o médico é diferente de Mister Hyde, o monstro, até o momento em que deixa de ser, por tornar-se o próprio.

* Reginaldo Daniel da Silveira é coordenador de pós-graduação em psicologia clínica das Faculdades Integradas do Brasil (UniBrasil).