Escolas vazias de aulas e de justiça

Não deixa de ser algo melancólico que em pleno mês de outubro, no qual se comemora o Dia do Mestre, estejamos vivendo esse clima surreal e iníquo dos enfrentamentos entre professores e polícia nas ruas do Rio de Janeiro. E quando a violência passa a presidir os acontecimentos, a melancolia se transforma em indignação e até mesmo em raiva. 

Não é por ser professora que empenho toda a minha solidariedade aos grevistas. Até porque trabalho numa universidade privada.  E aí é outra coisa. Mas o que se passa na rede pública é, no mínimo, vergonhoso para falar de maneira delicada e discreta.  Vejo Mariana, menina de 12 anos, filha de Ana, que mora aqui em casa, sem aula há mais de um mês.  A mãe se preocupa.  E realmente isso não é bom.  Mas o fato de Mariana estar sem aula é apenas a ponta de um processo que se arrasta há anos, há décadas de aviltamento do salário e da carreira daqueles que deveriam ser os profissionais mais valorizados de toda a cidade, de todo o país. 

Que profissão é mais importante que a de  professor? O que pode ser mais fundamental em uma sociedade do que a educação, a formação das pessoas, do que aqueles que as ajudam a ingressar na cidadania, nos direitos humanos, no amplíssimo universo do saber?  O que pode ser mais importante do que a produção e transmissão de conhecimentos?  O que faz um país senão isso?  

O professor é a chave de uma sociedade livre, democrática, politizada e autônoma. Sem educação não se pode pretender ser povo de cabeça erguida, que analisa a realidade, tira conclusões e toma decisões.  Sem educação não se constrói uma nação. 

Muitos homens públicos têm batido nesta tecla repetidamente.  Alguns já morreram, como o grande Darcy Ribeiro.  Hoje temos Cristovam Buarque, que não fala nem escreve sobre outra coisa, esperando que um dia resulte.  E os mais jovens: Chico Alencar, entre outros.  Parece não adiantar.  Tudo indica que só prosperam aqui os programas eleitoreiros, dos resultados imediatos, que não visam a transformações profundas e a longo prazo. 

As crianças vão à escola e têm uma porcentagem ínfima das aulas que deveriam ter.  Algumas vão por causa da merenda, pois o  boletim, ao final do ano, está coalhado com a maldita sigla que indica o desleixo pela educação fundamental : SP ( Sem Professor).  E um professor tem que correr cidade afora com duas ou três matrículas para trabalhar em dois ou três estabelecimentos e forçosamente prejudicar a qualidade do ensino que o aluno receberá na outra ponta. 

Isso é o dia a dia triste e desanimador da educação brasileira.  Mas quando a categoria vai às ruas, faz greve por melhores salários e condições de trabalho e, além de não conseguir o que reivindica, apanha, aí já é demais.  É simplesmente indecente ver professores com o rosto ensanguentado por haver defendido um colega contra a truculência da polícia.  Dá vontade de chorar ver professoras com anos de sacrificado e meritório magistério sendo contidas por policiais armados e protegidos por escudos. 

Talvez muitos deles, muitas delas, tenham ensinado àqueles que hoje os atacam.  Muito provavelmente, por terem estudado em escola pública, vários desses que hoje servem a um Estado injusto e violento sentaram-se nos bancos da sala de aula onde eles e elas ensinavam.  E o conhecimento que têm e que lhes permitiu fazer um concurso público, devem-no a seus professores, que com todas as dificuldades, devido às péssimas condições e baixos salários, transmitiram o que era possível. 

É perfeitamente compreensível desejar a manutenção de ordem nas ruas e a ausência de arruaças e quebra-quebra.  Mas mandar a PM reprimir os professores armada com spray de pimenta, gás lacrimogêneo e cassetete...sinceramente.  Não se está lidando com criminosos, senhores.  Nem com arruaceiros profissionais.  Diante de vocês estão os trabalhadores da educação que reivindicam melhores condições para poder formar as futuras gerações de brasileiros. 

O plano de cargos e salários elaborado pelo prefeito da cidade foi rejeitado.  O Sepe, sindicato da categoria, declara que atende a apenas 7% da categoria. Foi justamente esse fato que desencadeou a ocupação da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. No sábado, dia 28 de setembro, a PM retirou à força mais de 100 professores que ocupavam o plenário, a pedido do presidente da Casa. Hoje, o plano foi posto em votação e aprovado, sem a participação dos professores. 

Insatisfeitos com a ausência de participação e os resultados, os professores anunciam a manutenção da greve.  Os alunos continuam sem aula.  E o Rio continua com as escolas vazias e com uma educação de má qualidade.  Ausência de bom- senso, ausência de diálogo, ausência de justiça. 

Enquanto isso, os salários dos políticos sobem, a “evolução patrimonial” de outros atinge níveis estratosféricos.  Gastam-se milhões para fazer e desfazer estádios e enfeitar a cidade para a série de eventos que aqui tomarão lugar a partir de 2014.  E, no entanto, a educação amarga dias desanimadores e vê encurtar seus horizontes. As novas gerações não podem esperar grande coisa do futuro.  Ações extrínsecas que maquiam o rosto do país são mais importantes que uma educação séria e de qualidade a eles oferecida.  De luto por seus professores, a cidade comemora o Dia do Mestre em profunda tristeza.  Oxalá os responsáveis abram os olhos e vejam para onde estão conduzindo o futuro da nação, o amanhã de suas crianças.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros