Mais Médicos e os royalties do petróleo

As duas principais medidas adotadas pelo governo para responder ao clamor das manifestações públicas – o programa Mais Médicos e a destinação dos royalties do pré-sal à educação e à saúde – atacam a causa e os efeitos de uma antiga carência: a insuficiência do ensino, cujas consequências tornaram-se mais aparentes com a maior procura de profissionais determinada pelo crescimento econômico.

Independentemente da polêmica sobre a questão dos médicos, que alegam não faltar profissionais mas sim condições de trabalho para que atuem em algumas regiões, a verdade é que, na prática, milhares de vagas estão em aberto. Assim, a boa, velha e inexorável lei da oferta e da procura escancara a carência.

O problema, contudo, não se limita à falta de médicos. Criou-se até a expressão “apagão profissional” para nomear a dificuldade de se contratar em várias áreas, como na engenharia, na qual haveria déficit de 30 mil profissionais/ano. É importante lembrar que, até pouco tempo atrás, se falava que a formação técnica e acadêmica abaixo das necessidades do mercado de trabalho poderia constituir-se em obstáculo à expansão econômica.

Mesmo com a queda do nível de atividade, ainda se vê a contratação de engenheiros e outros profissionais estrangeiros, como da Espanha e Portugal, onde é boa a formação escolar mas cuja conjuntura de crise reduz muito o mercado de trabalho. Aqui, embora o PIB venha crescendo menos, continuamos convivendo com desemprego baixo e, portanto, demandando contratações.

Não podemos, contudo, analisar essa questão apenas pelo lado da quantidade. É crucial a formação de profissionais qualitativamente preparados. É nesse aspecto que se torna importante a lei que destina 75% dos royalties do petróleo à educação. À medida que novas jazidas sejam extraídas e passem a gerar recursos, aumentarão substancialmente as verbas para o ensino. Será fundamental a sua aplicação com muito critério e foco nos gargalos da educação. A começar pelo resgate da qualidade do ensino fundamental e do médio, considerando que a sua precariedade é responsável pelo ingresso nas universidades de um contingente grande de alunos com deficiências na formação básica.

Também é necessário zelar pela qualidade do ensino superior, garantindo a alunos de baixa renda com potencial acadêmico o ingresso em instituições particulares de bom nível. Programas como o ProUni, de bolsas de estudo, e o Fies, de financiamento das anuidades, devem ser estimulados, pois representam alternativa de democratização das oportunidades, tanto ou mais do que o regime de cotas nas universidades públicas. Enfatizo, ainda, a formação propiciada pelo Promatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) e o Aprendiz Legal. Faço essa observação lembrando que a experiência alemã de propiciar ensino técnico em parceria com empresas é uma das razões do baixo desemprego entre os jovens.

Como dirigente de instituição formadora de bons profissionais de administração e contabilidade, áreas também essenciais, sinto a responsabilidade imensa que têm todos os envolvidos na escolaridade das novas gerações. Não precisamos apenas de mais médicos mas, sim, de qualidade e quantidade em todas as profissões. Tal meta é que qualificará o Brasil como nação desenvolvida.

*Antoninho Marmo Trevisan, presidente da Trevisan Escola de Negócios, é membro do Conselho Superior do Movimento Brasil Competitivo e do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República.