As redes sociais e as ruas 

Por que os grupos sociais que estão indo às ruas se concentraram em hostilizar o atual governador do estado do Rio de Janeiro – Sérgio Cabral ? Por que aparentemente esqueceram tantos outros políticos de comportamento igualmente questionáveis?  Como, por exemplo, Sarney, Collor e Rennan.

Há mais de um século, o sociólogo e psicólogo francês, Gustav Le Bom, em seu livro a Psicologia das Multidões (1895) dizia que estávamos vivendo a era do poder das multidões e que estas estavam suplantando velhas estruturas e instituições. Tais multidões  têm um comportamento alheio à soma das personalidades individuais de sua composição social. Valores políticos, religiosos, morais, habitam o subconscientes das pessoas, muitos deles com marcas ancestrais de sua formação, desconhecidos pelo lado racional de suas personalidades. Citado por Freud, em A Psicologia das Massas e a Análise do Eu (1921), Le Bon dizia que as multidões são guiadas por símbolos e agem como um único ser, submetido ao que ele chamou de lei da unidade mental das multidões. Portanto, com racionalidade diferente da capacidade daqueles que lhe formam. 

Alguns líderes interagem com esse imaginário do subconsciente, dizia ele, outros têm limitações. Por exemplo, Napoleão conhecia com profundidade a alma das multidões francesas, mas não era assim com o povo espanhol. Segundo Freud, as multidões são um grupo psicológico bastante crédulo e aberto a influencia, sobretudo de imagens, e seus sentimentos são sempre extremados, contagiosos e submetidos a quase nenhuma incerteza. E têm sempre em seu imaginário um alvo a desconstruir.

Pensemos então no que está acontecendo no Brasil nos dias de hoje. Como explicar um comportamento de multidões tão homogêneo e simultâneo no País inteiro? Por que tantas certezas em tão pouco tempo mesmo tendo a maioria da população passado por longo período de mensagens alienantes – neste caso, muita publicidade - de grande parte mídia tradicional?

Duas indicações surgem para esse fenômeno de massa que varre o mundo e que chega ao Brasil. A primeira é que os autores citados,  mesmo distante de nosso tempo, tinham razão. As multidões respondem a estímulos do subconsciente sem correspondência ao lado racional do consciente, do aparente. A segunda, é que vivemos na era das imagens e da informação, ou da sociedade em rede, segundo o escritor contemporâneo Manuel Castells. O capitalismo desenvolve horizontalizando sua produção, mas também, através da Internet, socializa a informação. 

O facebook é o produto mais popular da Internet e tudo indica que nas manifestações está exercendo papel de inputs potencializadores que os líderes exercem sobre as multidões.  Resta saber que estruturas serão suplantadas. No Rio de Janeiro, contagiando as de São Paulo e de Minas Gerais, tudo indica que elas escolheram pelo menos um alvo. O governador do Estado.  É esperar para ver  se elas serão vitoriosas.

*Fernando Peregrino é doutor em Engenharia  de Produção pela COPPE/UFRJ e

Presidente do Instituto Republicano