Quem perde com a morte de Luiz Paulo Horta

Ao receber a notícia brutal e imprevista da morte do querido amigo e irmão Luiz Paulo Hortal, a sensação de perda é de profunda dor. Abre-se um vazio, um abismo feito de perplexidade e não compreensão. Até a véspera falara com ele ao telefone, combinando encontros, almoços, trabalhos em conjunto. Todos preparavam alegremente sua festa de 70 anos.  E ele convidava com humor refinado, bem característico seu: “Foi impossível resistir. Cheguei lá!” 

Em lugar da alegria do aniversário, reunimo-nos todos a chorar sua morte e a celebrar a esperança de sua ressurreição.  Parecia que era isso que nos dizia com seu rosto sereno e algo sorridente no caixão cheio de flores. 

Com sua partida, perdem a música clássica e as artes brasileiras um grande comentador e crítico. Luiz Paulo tinha a beleza e a música nas veias. Conhecia toda e qualquer peça produzida em qualquer momento da história e sobre ela dissertava, quando não a tocava em seu piano ou teclado. Não apenas conhecedor mas amante da música (ou talvez conhecedor porque amante), era alguém imprescindível quando se tratava da música erudita e das obras dos grandes mestres. 

Além da música, a literatura.  Leitor voraz e autodidata, Luiz Paulo tinha profunda cultura literária.  Autores de todas as nacionalidades e idiomas faziam parte de sua biblioteca, e ele os comentava da maneira simples, terna e deliciosa com que tratava todos os assuntos. E além da literatura estava a filosofia. 

Seu campo de trabalho foi o jornalismo.  E ele o vivia com a seriedade e dedicação com que fazia todas as coisas.  Diariamente ia ao jornal, mesmo agora nos últimos tempos, já acadêmico e imortal.  Seus artigos, brilhantes e profundos, eram peças raras em meio à avalanche de banalidades que às vezes caracteriza o mundo da imprensa nos dias que correm.  Sempre precisos, abundantes em informações, verdadeiros. 

A retidão ética constitutiva de sua personalidade transparecia no que escrevia e era comunicada a seus leitores.  Luiz Paulo não fazia concessões fáceis e sempre ao escrever não se contentava de apenas informar, mas também formava. 

Um dos campos onde mais se destacava seu conhecimento era o da religião.  Talvez porque não o penetrava apenas com o intelecto, mas com o coração.  Luiz Paulo era um homem de fé.  E foi essa fraternidade e essa comunhão que nos uniram e aprofundaram nossa amizade. 

Edificava-me o fato de ser tão profundamente cristão e, no entanto, tão aberto e receptivo a qualquer pessoa de qualquer religião.  Jamais o vi não acolher alguém devido a uma diferença de credo.  Ou qualquer outra diferença.  Tinha uma universalidade na acolhida, na recepção, no diálogo com todos, que chegava a ser impressionante.  Talvez isso estivesse na raiz de ser tão querido, tão amado. 

É muito raro, especialmente no Brasil, uma pessoa ser ou tornar-se uma unanimidade afetiva.  Não ter inimigos, só admiradores, só irmãos, só afetos. Pois assim era com Luiz Paulo.  Todos o amavam, todos o admiravam, todos tinham por ele uma terna afeição. E a todos ele atingia docemente com sua imensa ternura, com seu jeito amoroso de ser. 

Para mim e para muitos,  Luiz Paulo foi o intelectual brilhante, o leitor voraz e erudito, o escritor cuidadoso, o acadêmico irretocável...Mas sobretudo a encarnação da ternura de Deus.  Tudo nele respirava essa ternura dispensada a todos, dos mais simples aos mais importantes.  A singeleza terna de seu olhar, de sua presença, de seu falar...tudo  transmitia essa verdade na qual acreditamos e que agora ele conhece face a face: Deus é amor! 

Essa ternura que o fazia aproximar-se de qualquer um e qualquer uma, sem se impor nem fazer peso, aparecia também em seus escritos.  Não há um leitor por esse Brasil afora que não tenha acompanhado com deleite as análises do grande jornalista que ele foi sobre os mais diversos temas.  Sempre,  fosse o assunto música clássica, cinema, política ou religião, além do profundo conhecimento, brilhava a doçura que aparecia até mesmo no jeito de escrever. 

Com a partida dessa pessoa infinitamente doce e amável, desse ser humano de estatura incomensurável perdemos todos.  Perde a imprensa brasileira um grande jornalista. Perde a música erudita e as artes um grande crítico.  Perdem as letras brasileiras um grande escritor.  Perdemos todos nós, seus amigos, que o amamos e que agora contaremos com seu afeto desde outro lugar: o de intercessor junto a Deus. Perde a Igreja militante um membro dos mais ativos. Ganha a Igreja triunfante outro santo, cuja vida nos inspirará incessantemente, sobretudo cada vez que no peito apertar essa saudade que dali não mais sairá.   

 *Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de vários livros como 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e, o mais recente, 'O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença' (Editora Rocco). - [email protected]