A chacina de São Paulo, os videogames e a imprensa

Começou. A trágica morte de uma família em São Paulo poderia ter passado despercebida no noticiário nacional. Mas a história ganhou um tempero extra, uma novidade que chocou todo o país. O principal suspeito é o caçula da família, uma criança de apenas 12 anos. 

O filme que nós estamos vendo agora na imprensa nacional não é diferente do que já ocorre nos Estados Unidos sempre que um adolescente comete um crime semelhante. Jornalistas sem informação ou escrúpulo correm atrás de uma conclusão precipitada que lhes renda uma boa capa, atropelando a vida pessoal de vítimas sem pensar duas vezes. 

Depoimentos de parentes, fotos do local, detalhes pessoais, uma devassa nas redes sociais. Desta vez, foram necessárias apenas algumas horas para esse jornalismo tresloucado encontrar seu alvo: a imagem de um personagem de videogame. Marcelo Eduardo Bovo Pesseghini usava como foto de perfil um personagem da série Assassin's Creed. E isso, eu pergunto, é notícia? 

A maneira como isso foi retratado em alguns veículos, que valorizavam o "personagem assassino dos videogames", levanta vários questionamentos. Será que não estamos caminhando para a perigosa direção na qual o jornalismo deixa de ser apuração e passa para o campo da suposição? 

Se for assim, qualquer um que curtiu a página de 'Velozes e furiosos' no Facebook é um atropelador homicida em potencial. Jamais deixaria minha filha casar com alguém que tivesse 'O iluminado' entre seus filmes favoritos. Se lesse Nelson Rodrigues então, já deveria ser automaticamente rotulado como cafajeste. Todo fã da Fazenda Feliz seria um latifundiário antirreforma agrária em potencial. 

Os exemplos acima podem ter parecido exagerados, mas não são muito diferentes do que a imprensa paulista fez ao vasculhar a vida do garoto de 12 anos, suspeito de ser o assassino. O mais curioso é que, horas antes, apresentadores de televisão diziam em rede nacional que a morte da família era "uma declaração de guerra" do crime organizado à PM de São Paulo. Isso exclusivamente porque duas vítimas eram policiais militares. De novo, a primeira impressão vira notícia. A mesma na qual você tenta confiar toda vez que liga a TV ou abre um jornal. 

O problema não é o personagem de videogame que vira vilão ou a suposta declaração de guerra. É a incapacidade da imprensa brasileira de apurar os fatos antes de divulgá-los. 

Os "vândalos" dos protestos que assolaram o país mandam lembranças. 

*Jorge Lourenço, jornalista, é autor do livro 'Rio 2054 - Os filhos da revolução'