África do Sul: turismo e contradições

Acabamos de retornar de mais uma viagem pelo continente africano, mais especificamente pela bonita África do Sul, onde são falados onze idiomas e ate hoje convivem, lado a lado, o desenvolvimento, o subdesenvolvimento e algumas contradições culturais e étnicas. 

Falar sobre tal país é mencionar o seu principal produto turístico —  a Cidade do Cabo — onde a metade da população vive em townships, como são conhecidas as favelas locais.São de uma precariedade grande, com banheiros coletivos e uma xenofobia ignorada por muitos.Sim, ali vivem muitos estrangeiros, que sofrem inúmeras atrocidades, por parte dos sul-africanos negros. Normalmente, oriundos dos países fronteiriços, eles representam uma concorrência no mercado de trabalho local, por serem muitas vezes mais preparados e terem uma vontade grande de ganhar dinheiro, para um dia retornar para seus países de origem.

País de quase um partido único, com pouca oposição, ainda convive com uma animosidade grande entre brancos e negros, que se identificam pelas suas tradições e sobretudo pelos idiomas. Sente-se um apartheid velado, sobretudo quando ainda existem bairros onde moram brancos, outros negros e os coloured, que são mestiços que falam africâner.

Por outro lado, a beleza é estonteante,a  começar pela Table Mountain, que cerca toda a cidade e cujos contornos nos remetem a imagens paradisíacas. Além do porto, totalmente reconstituído com lojas, restaurantes e hotéis, que  forma o conhecido Waterfront, que ganhou uma roda gigante em proporções menores mas de beleza parecida com a London Eye ou ainda com a Singapore Flyer. A cidade, muito bem sinalizada e com uma população receptiva e alegre, recebe muito bem os turistas e conta com transporte público barato e em desenvolvimento.

O aeroporto e a rapidez nas formalidades de entrada e saída talvez sejam uma demonstração de evolução turística, sem contar com a ótima rede de estradas e pessoal bem treinado nos diversos prestadores de serviços turísticos. E uma experiência natural e cultural única, que nos revigora e nos surpreende a cada nova investida. Pensar que ali está parte da história dos grandes descobrimentos, como o Cabo da Boa Esperança, que nos traz uma sensação própria de quem admira o que já foi descoberto e entendido, mas que até hoje causa comoção e alegria.

A empresa aérea nacional South African Airways precisa, apesar de um atendimento razoável, adequar-se melhor ao consumidor brasileiro, começando por incluir comissários que falem português, além de capacitá-los melhor para o atendimento. Sorrisos e alegria não são suficientes. Brasileiros gostam de ser bem atendidos e sobretudo escutados.

E importante ressaltar também a beleza das vinícolas, que ficam nas redondezas de Capetown. Elas nos levam a entender a grande qualidade do seu vinho, com degustações rápidas e queijos locais. Sente-se um ar europeu misturado com alegria e informalismo presentes no país, que tem algumas tradições britânicas mas convive com um modus vivendi mais tropical.

O Brasil precisa se relacionar melhor com o turismo sul-africano, para que possamos entender nossas origens mas sobretudo para saborear uma experiência cultural e natural, que permite férias seguras, com preços competitivos e qualidade humana e profissional.

* Bayard Do Coutto Boiteux, professor universitário, pesquisador e escritor, preside o site Consultoria em Turismo e coordena o curso de turismo da UniverCidade.