Francisco e a linguagem universal do Espírito Santo

Entre as lindas cenas que pontilham a passagem do papa Francisco pelo Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude está seu gesto de beijar crianças.  Com isso ele visibiliza e torna presente novamente o gesto de Jesus de Nazaré, que aos apóstolos que queriam afastar os pequenos os acolheu com amor.            

No tempo de Jesus a criança não era prestigiada ou valorizada como nas sociedades ocidentais de hoje.  Tanto é assim que há mais de uma passagem evangélica onde se descrevem as multidões que seguiam a Jesus mencionando a quantidade de homens e acrescentando: “sem contar as mulheres e as crianças”.             

A falta de cidadania das crianças, frágeis e indefesas, comove o coração compassivo do Mestre e o faz pronunciar as palavras que hoje são repetidas em todo lugar onde se anuncia o Evangelho: “Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o Reino dos céus”.            

Este anúncio, o papa Francisco o tem feito com seu gesto alegre e carinhoso, beijando e acariciando todas e cada uma das crianças que lhe são apresentadas em suas aparições públicas.  E assim anuncia que a vida frágil, pequena e desprotegida da criança encontra abrigo junto a Deus, que é Pai de todos e cuida do que é pequeno, desprezado e frágil com redobrado amor.             

A mulher emocionou-se muito ao ver a filha nos braços do papa e sentiu-se invadida por algo inexplicável.              

Em sua chegada ao Rio de Janeiro, enquanto o veículo aberto do papa desfilava pelo centro da cidade, Francisco repetiu esse gesto várias vezes com várias crianças.  Mas uma foi especial. Tratava-se de uma menina de um ano e oito meses, de nome Izadora,  filha de uma mulher evangélica, Thais Albuquerque Ramos, que acompanhava uma amiga católica na visita pontifical.              

Thais vive um momento difícil, com um casamento que não vai bem, morando com a filha na casa do pai.  Ao caminhar perto do papamóvel foi surpreendida com o pedido do papa para segurar a menina. Francisco apontou a criança, e os seguranças a levaram até ele.  E a mãe emocionou-se muito ao ver a filha nos braços do papa, sentindo-se trêmula e invadida por uma sensação inexplicável.              

O fato de ser uma criança filha de uma evangélica, mulher pobre e simples, da Zona Norte do Rio, marca o gesto do papa de um selo diferente.  Thais é de uma confissão cristã diferente da de Francisco.  Declarou que o gesto do papa, com toda a emoção e a energia positiva que trouxe para ela e sua filha, não vai fazê-la mudar de religião ou influenciar na escolha religiosa da filha.  Mas seguramente é algo de que nunca vai esquecer.            Abraçando e beijando essa criança brasileira, evangélica e humilde, Francisco não só repete o gesto de Jesus de Nazaré, de acolher aquilo que é frágil, pequeno e vulnerável, como também e não menos mostra que o evangelho do amor e da acolhida sem discriminação é universal.             

O anúncio de que Deus é amor, amor real e concreto, independente de raça, cor, sexo, condição social, pertença religiosa está registrado para sempre no gesto de Francisco de desejar abraçar e beijar uma criança evangélica e fazê-lo.              

A pequena Izadora, da mesma linhagem da mulher siro-fenícia, da Cananeia, da samaritana, de todos os representantes de religiões outras que se aproximaram de Jesus e foram atingidos por seu amor, é hoje sinal visível — sacramento — do que a Igreja Católica, na pessoa do bispo de Roma, o papa Francisco, quer dizer.  Não há o menor sentido em separações entre pessoas que professam credos diferentes.  Sobretudo entre aqueles que recebem o mesmo batismo e rezam o mesmo credo.  O Espírito Santo, artífice da comunhão universal, inspirou Francisco ao beijar na pequena Izadora, todas as outras Igrejas cristãs com as quais a Igreja Católica deseja estar em unidade e comunhão.  

* Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de “O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença” (Editora Rocco).