Sem automatismo

As manifestações populares em praça pública pelo país impuseram limites ao jogo de empurra entre instâncias de governo. A política não desapareceu, mas seu campo de ação está se deslocando. As incontáveis comunidades criadas via redes sociais estão renovando a experiência da política. Focalizar o debate sobre a exigência por qualidade dos serviços públicos devolve-lhe a clareza. 

A estrutura do poder reflete hoje somente um determinado modo de encaminhamento das decisões no labirinto organizacional da máquina pública. Daí que novas formas de corrupção podem florescer. Todos os que tiveram a oportunidade de enriquecer a discussão acerca dos problemas levantados doravante carregam parte da responsabilidade na busca por soluções efetivas. Não se pode operar com êxito uma economia de consumo de massa sem implantar uma matriz integradora de confiança. Vantagens econômicas, exigência moral, tensões sociais, todas devem ser igualmente levadas em consideração. 

As instituições políticas estão sendo convocadas a organizar e manter vinculações com novas comunidades marcadas por um dinamismo peculiar, a exigir novas formas de negociação. A tecnologia da informação facilita tanto a difusão do poder quanto sua concentração. Fator essencial para a difusão do poder, aumenta da velocidade de circulação da informação e permite que todos possam transformar essa informação em conhecimento. Mas ela também facilita o controle do poder: cada gesto da vida cotidiana (chamada telefônica, leitura de página da internet, envio de e-mail) é suscetível de deixar um rastro eletrônico que possibilita retratar nosso ser privado. 

A comunidade política, por permitir que aspirações pessoais encontrem uma expressão coletiva, reconfere dinamismo à vida democrática. A infinidade de conexões estabelecidas fora do alcance das instituições tradicionais demonstrou que as pessoas não são mais prisioneiras de antigas estruturas. A tecnologia da informação modifica as condições de exercício do poder, desloca o debate político, sem automatismo. Só a concorrência institucional, consequência de uma difusão do poder entre várias estruturas que se cruzam sem se sobrepor, que se completam sem poder eliminar totalmente a concorrência, oferecerá à ordem política vigente mecanismos eficazes de regulação do poder. 


 * Tarcisio Padilha Junior é engenheiro.