Gandhi e o gás

A violência é um problema crucial para entendermos a formação histórica do Brasil. Um país que viveu 300 anos sob a institucionalização da repressão sobre os negros não deveria ser considerado um país pacífico. Dirão também os índios que há cinco centenas de anos têm sido expulsos de suas terras. Por que então a violência diante das manifestações que deixaram o país perplexo causa tanto temor?

Apenas Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda é que estariam neste momento perplexos. O holocausto brasileiro (para lembrar um livro recém-lançado sobre as mortes em um hospício), a repressão e a violência legalizada pelo Estado sempre fizeram parte do cotidiano brasileiro, tanto simbolicamente nos bairros nobres das cidades com seus elevadores de serviço herdeiros das senzalas quanto na realidade de sangue e balas letais das periferias.

Dois eventos simultâneos ilustram bem a violência como lugar-comum do brasileiro. No dia 19 de junho participei da manifestação realizada para protestar contra os gastos da Copa do Mundo. Os manifestantes pararam defronte à barreira policial que protegia a “zona de comércio” da Fifa; os policiais inusitadamente deram espaço às pessoas para de repente começarem o bombardeio, era uma armadilha.

Naquele mesmo momento, na rua onde moro, na periferia de Fortaleza, um assaltante que tentara roubar uma moto de um vizinho foi pego pela população; bateram, lincharam, passaram por cima do homem caído no chão com a mesma moto. Um policial chega, dá um tiro para cima e afasta a aglomeração. Uma viatura chega. No caminho para o hospital o ladrão morre. Há no pais uma legenda que ladrão se mata com tiro, escreveu o poeta.

Qual a relação entre ambos os casos? Quem era o “bandido”, o ladrão ou os manifestantes? Quem era o algoz, a população ou a polícia? Muitos dos meus vizinhos acreditam que nas manifestações que ocorrem no país o problema são os “vândalos” que promovem o quebra-quebra. A violência contra um igual (sim, ele, o ladrão, é tão pobre tanto quanto os outros) é permitida, mas contra a polícia (leia-se, o Estado) não. Pobre matando pobre é permitido, afinal também é daí que sai o braço armado do Estado, a polícia. Acontece que há um genocídio de classe substanciado pela ideologia do “bandido bom é bandido morto”.

A violência naturalizada positivamente pelo cotidiano dos programas policia, quando se vê a morte de gente da periferia, ironicamente encontra um conteúdo negativo quando a questão é política. Neste sentido, a ideia da "denúncia dos vândalos” feita pelos próprios manifestantes é uma releitura do “bandido bom é bandido morto”. Afinal, não há como conter a violência em qualquer fenômeno deste tipo, como a história nos ensina. Não se pode então haver portanto uma defesa da violência se ela já é por si socialmente produtiva em nossa sociedade marcada pela exclusão da maioria. Ela é hoje apenas um tapa na cara (literal) em quem acreditava no pacifismo do brasileiro.

A gente esquece que o Estado é violento, seletivo e discriminador, basta comparar  os casos do tratamento dado na ação da favela da Maré e do “aconchego” que deram a um estudante de arquitetura preso e logo solto em São Paulo. A população por seu lado também é violenta, porque vive sob essa lógica que estrutura sua pobreza e também seleciona suas vítimas, quase sempre da mesma classe social. O que vemos hoje é uma reação de séculos contra um genocídio apenas local, dentro da periferia. Mas quando ela começa a encontrar um vetor político de ab-reação o Estado treme. O fictício pacifismo e a hospitalidade brasileira então devem entrar em cena.

*Sergiano Silva é historiador.