No chamariz das corrupções e outras querelas

Quando abordou a questão do “complexo de vira-latas” nos anos 50, sabia Nelson Rodrigues, notável dramaturgo brasileiro, que tocava no ponto nevrálgico de um grave problema nacional. Apesar da ’alcunha tratar basicamente do âmbito futebolístico, ele não desconhecia este terrível cancro nativo – “Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”.    

Entretanto, já tinha brotado décadas atrás uma personagem literária que remetia à triste condição e que tornar-se-ia um aclamado símbolo nacional: Macunaíma, o “filho do medo da noite”, o rei do engano e da calhordagem geral. De modo que o “espírito da malandragem” não poderia receber acolhimento tão caloroso como nos trópicos brasileiros. Fosse tal derrota existencial do macunaímico estilo um mero devaneio artístico do senhor Mário de Andrade, e nenhum problema haveria. 

Infelizmente, não é o caso. Fatos históricos atestam graves indícios de condutas equivocadas que podem ter catapultado a rachadura da espinha dorsal de um mundo que queria ser grande. Enxovalhado pela novíssima elite brasileira, dom Pedro I foi obrigado a deixar o país por ele proclamado independente. Depois, foi a vez de dom Pedro II e de sua filha, princesa Isabel. 

A República surgiu por meio de um golpe do Exército e empunhando uma bandeira com lemas positivistas – época onde somente o Brasil, como monarquia, resistia à mesmice política das Américas. Loyalty. Se o homem não é leal, ele transforma-se num bastardo. Ditaduras, presidente assassinado, presidente deposto, renúncia de presidente, êxodo oficial da política nacional para um local construído e distante do eixo do país – Paulo Francis, um dos maiores analistas políticos brasileiros, considerava que a ideia “Brasília” tinha como pretensão o escape do bafo quente da imprensa – tudo isso ocorreu no século passado. 

Agora, em pleno século 21, o brasileiro ainda é obrigado legalmente a votar nas eleições políticas – e também sem a livre escolha de optar por uma votação manual, se preferir – e a cumprir o serviço militar. Tamanha tortuosidade de destino torna mui enfadonho assistir ao espetáculo de destruição da inocência juvenil por retóricas políticas, de mídias sedentas pelo circo em chamas, de artistas e famosos no espaço por mais um flash do fotógrafo. Assim, à margem do centro caminha a brasilidade cheia da razão e com discursos confirmados por um moralismo vaidoso apesar da senilidade. Cultura do estímulo à evasão, onde muita festa se faz, mas pouca coisa acontece efetivamente. 

A politicalha ri desses atos essencialmente imaturos, reincidentemente estéticos, que passam ao largo da questão primordial – os fundamentos. A letargia espiritual não permite a interpretação dos acontecimentos para além da horizontalidade factual. Sendo que a macunaímica postura escapa do confronto com as valorações e a necessária análise conjuntural ao defender mudanças imediatistas. 

Ora, uma nação ergue-se frondosamente, com o decorrer das décadas, no fortalecimento das bases, na postura do estadista, na retidão sacerdotal, na seriedade intelectual, e não através de estripulias momentâneas que muito longe estão de desvendar o problema. Eis o momento onde Macunaíma e Vira-latas dão as mãos e enterram voluptuosamente suas cabeças n’areia. 

Dói acreditar que, no final das contas, a opção por abraçar caninamente como um modus vivendi o significado desta frase de Goethe: “Certas pessoas não abdicam do erro, devem a ele a sua subsistência” – seja uma sacramentada realidade da mentalidade influente nesta terra. 

* Roberto Muñoz é escritor.