Alimentar-se

Cheguei no Ginásio Luizão da Vila Santa Emília, Venâncio Aires, interior do Rio Grande do Sul, pelas duas da tarde de sábado, 15 de junho, dia do jogo de abertura da Copa das Confederações em Brasília, Brasil contra Japão. Nem cheguei a me encostar no tradicional balcão para pedir o copo de cerveja que os alemães-gaúchos já tomavam enquanto olhavam o jogo de futsal da gurizada do meu time, o São Luiz, e alguém, sob os olhares e ouvidos de todos, disparou a pergunta: “Tu viu o que aconteceu hoje em Brasília, a Polícia Militar de lá batendo no povo e nos estudantes?” Eu, que tinha estado em duas atividades políticas na parte da manhã, e agora estava querendo lazer e confraternização na minha comunidade, não sabia o que tinha acontecido, não tinha nenhuma informação.

Quando se está muito tempo longe de casa, do seu chão e origem — no meu caso, inéditos dez anos em Brasília, completados em 2013 — chegam momentos em que, ou a gente cansa de estar longe, e pode perder o rumo e o prumo, como se dizia antigamente, ou a gente, de alguma maneira, acha um jeito de revigorar-se, (re)acender a chama e o viço, (re)alimentar-se.

Muitas vezes são coisas absolutamente simples, até triviais, corriqueiras. Por exemplo, chegar no ginásio da sua comunidade, inesperadamente, sem ninguém saber previamente, e, de supetão, ser atingido pela pergunta: “Mas você não sabe o que aconteceu hoje em Brasília, você que mora lá faz tempo, você que trabalha no governo federal ao lado da presidenta Dilma?” Aí você olha ao redor, fica um tanto quanto sem jeito, pega o copo de cerveja na mão para recuperar o fôlego e começa (ou tenta) a responder e explicar o que provavelmente aconteceu. 

Ou então, chegar em casa de mamãe, ela já te espera, porque o mano Marino te encontrou de manhã na Feira do Produtor na cidade e contou a novidade. E ir buscar bergamotas (ou bergas, como se fala por lá) para comer, as que sobraram no caminhão que leva os produtos para a feira, ou, melhor ainda, buscá-las direto no pé, amarelas, gostosas que só. Como é inverno e vai haver o jogo do Brasil, e é quase inverno, o frio está chegando, fazer fogo no fogão a lenha, acompanhado de um bom chimarrão, mais um pinhão ou milho colhido direto na roça, mais tarde uma caipa e um bom vinho, conversa sobre a vida, o jogo e as manifestações na capital federal. Mamãe pergunta, em bom alemão, se em Brasília também faz frio como em Santa Emília. Ela, nos seus 86, sabe quem é o Neymar (como sabe quem é o Ronaldinho), e assim a vida (re)adquire um sentido que às vezes parece que você perdeu em algum lugar. No domingo, ir na devoção na igreja, encontrar amigos, falar sobre o Plano de Agroecologia que foi aprovado, rezar o terço, ouvir o Evangelho, refletir sobre a vida.

Você descobre que as pessoas estão atentas, mesmo numa pequena comunidade do interior. Leem a Folha do Mate, o jornal local, têm acesso à internet, ouvem rádio, acompanham a vida e o mundo. E não apenas a mobilização social de Brasília que a polícia reprimiu. Querem saber do porquê, entender. Por que há tanto dinheiro gasto nos estádios da Copa e não há dinheiro para fazer o asfalto entre a cidade e a vila do interior, onde se localiza um frigorífico que emprega cem pessoas e os que trabalham na roça produzem muito? Por que há tanto dinheiro para os salários altos e os gastos de uns e outros de vários poderes e o agricultor tem que trabalhar tanto para viver e sobreviver? Por que os ricos continuam muito, muito ricos, e os pobres, embora tenham melhorado sua condição, continuam pobres? Por que há tanta corrupção? Por que o povo e os jovens não podem manifestar-se livremente, sem a polícia baixar o sarrafo? 

O alimento é físico e espiritual. Alimentar-se, beber das fontes da comunidade, conviver com as perguntas incômodas, ouvir as críticas direto no ouvido sem se incomodar, explicar o que está acontecendo e o que está sendo feito. Estar perto do poder não significa, ou não pode significar, ficar ou estar longe do povo, de seus questionamentos, de suas dores, de suas dúvidas, de seus sofrimentos. É preciso percebê-los, ouvir, ficar humildemente em silêncio, sem querer dar e ter todas as explicações e justificativas, como se as verdades todas estivessem prontas, todas as respostas estivessem na ponta da língua, todas as medidas do governo fossem suficientes ou corretas. 

Como tenho dito, muita calma e tranquilidade nesta hora, diálogo sempre e avançar nas políticas, programas e reformas estruturais. Sacudir cabeças, mentes, ideias estabelecidas, governos, com a ajuda dos jovens na rua. E (re)alimentar-se do gosto da vida, do ser comunidade, do não fazer as coisas sozinho, da juventude que felizmente está viva e se mexe, do sonho de um mundo melhor, de um Brasil justo e solidário.

* Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República