Orgulho profissional e educação

O diretor do departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Dirceu Greco, foi exonerado em decorrência da divulgação de uma campanha destinada a combater o preconceito contra os profissionais do sexo. Aparentemente, o que causou mais escândalo foi a frase: “Eu sou feliz sendo prostituta”. A questão é grave e complexa. A prostituição é fato que não pode ser simplesmente ignorado. Prostitutas pertencem ao grupo de extremo risco para doenças sexualmente transmissíveis – e é dever dos órgãos públicos de saúde protegê-las e a seus clientes. 

Para isso, é indispensável a conscientização das próprias prostitutas – e o primeiro passo é o reconhecimento delas como profissionais que são, já que nenhuma participará de programas de prevenção se elas forem tratadas desdenhosamente como criminosas ou “pecadoras”. Imensa maioria das prostitutas é inquestionavelmente infeliz: se pudessem, mudariam de profissão. Afora os preconceitos sociais, a atividade não costuma ser agradável – é perigosa e geralmente dura poucos anos. 

Apenas a possibilidade de ganhos maiores que nos outros empregos que poderiam ter as mantêm nela. Presente no âmbito social, embora combatida no âmbito político, a reserva religiosa e moral contra a prostituição tem como pano de fundo uma questão essencial: a diferença básica entre o que constitui o ser humano, em relação a quem é ele. Socialmente, as pessoas são definidas pela profissão, uma das primeiras informações que se troca já nas apresentações. Exercício profissional exige educação, formal ou não formal, tem suas regras, seus riscos e prevenções – e diz muito sobre nossos valores e estilo de vida. 

Num país carente de condições mínimas garantidoras de saúde, de acesso à educação e de critérios objetivos de cidadania, é efetivamente temerário, quando não criminoso, fazer uma suposta apologia de atividade com riscos enormes à segurança física e emocional, que demanda acompanhamento constante de uma equipe multidisciplinar. Disso, não conseguimos garantias para praticamente nenhum brasileiro. É notória a diferença entre saúde pública e privada no Brasil. Infelizmente, qualidade de vida costuma depender mais da condição financeira do que efetivamente ser proporcionada a todos os cidadãos pelos impostos pagos – os quais, aliás, não são opcionais. 

Declarações ufanistas sem base nenhuma na realidade objetiva não contribuirão para a minoração de preconceito e a melhoria de acesso aos benefícios das (poucas e incompletas) políticas públicas, quando ainda tentamos implantar uma educação inclusiva – apesar do expresso na Constituição, o direito à igualdade, ingresso e permanência na escola está longe de ser alcançado. Estudiosos relatam a compreensão como função do espírito, raramente resultado mecânico da inteligência. Não se vencem preconceitos arraigados com voluntarismo. 

Mais que cartazes e apostilas de orgulhos infundados, necessitamos de uma sociedade estruturada – e não ideias vagas de inserção por meio de bom mocismo institucional. Solidariedade, inerente à questão educacional, implica em responsabilidade política. A tradição humanista, idealizada, porém não estabelecida na prática comunitária, pode revelar-se um otimismo perigoso quando analisada à luz da realidade. 

 *Wanda Camargo, educadora, é assessora da presidência das Faculdades Integradas do Brasil.