Vai ser poeta, meu filho!...

Por Wander Lourenço*

No poema O menino que carregava água na peneira, de Manoel de Barros, o eu-lírico observa que a mãe reparou nos despropósitos, cismas e esquisitices das atitudes do filho até perceber que ele aprendera a lidar com as palavras e seus prodígios; e, com ternura, lhe diz: “– Você vai ser poeta!” Em tempos de banalização da poesia, porém, desconfio que o sujeito contemporâneo, quando não se adapta ao emprego, estudo ou casamento, por uma espécie de inspiração divina, desvairadamente se habilita a rascunhar odes, elegias e sonetos. 

Ao se julgar um Manuel Bandeira, Gabriela Mistral, Pessoa, Drummond, João Cabral ou Cecília Meireles, sem se dar conta acaba por azucrinar a paciência de um pobre cristão, que se torna pouco afeito à lira de Orfeu, justo por não se entusiasmar com a deturpação da arte de Camões, Neruda e Vinicius de Moraes. É poesia de procedência duvidosa made in Brazil, como o leite malhado do Rio Grande do Sul.  Se o leitor ainda não parou para observar, peço que atente para alguns casos típicos de trovadores a varejo, espalhados pelos botequins ou saraus a recitar ao cidadão que, constrangido, ainda é obrigado a adquirir um livro ou folheto artesanal.

Sem sombra de dúvida, a poesia é a “profissão” do momento, uma vez que brotam poetas como mato, embora, com exceção de Manoel de Barros, Ferreira Gullar, Ivan Junqueira e Carlos Nejar, daria para se contar nos dedos da mão direita o número de bardos detentores de originalidade e talento. De outra feita, a safra é tão significativa em gênero, número e grau (etílico homérico!), que penso em aconselhar o governo federal que os exporte para o Oriente Médio, EUA ou China, a fim de que se aumente o tal bendito pibinho da presidenta Dilma Rousseff. Deus que os perdoe, mas há quem sugira que se organize um Concurso Nacional de Poesia, com a seguinte premiação: Primeiro lugar, um passe do pastor Marcos Pereira; ao segundo colocado, um tour de ônibus pela cidade do Rio de Janeiro. Ao terceiro lugar, uma bicicleta.

São os tempos pós-modernos que produzem poesia tipo C em toneladas, sem controle de qualidade e estoque, mas com prazo de fabricação, validade e entrega (delivery ou self service?), assegurados pelo direito do consumidor. Na contemporaneidade lírica, para ser admirado pelo espectador ou leitor, é fato que bastaria ao poeta, para reconhecimento público e editorial, dar sete cambalhotas e dois saltos mortais; plantar três bananeiras sem perder o fio da meada do recital; se atirar ao chão a simular espasmos de epilepsia ou coisa parecida; e mostrar seios ou bunda à farta para delírio da plateia, sob o slogan em néon ou laser: uma imagem vale por mil vocábulos. Mas, afinal, o poema é feito da visceral e sagrada Palavra posta em versos ou de pirotecnia acrobática provinda da caraminhola da Deborah Colker e do Circo de Soleil?   

Posteriormente, o performer dana-se a discursar a não poder mais a favor da inconstitucionalidade do aumento da maioridade penal, a denunciar o absurdo da legalização do plantio de cana-de-açúcar na Amazônia, a clamar pelo cúmulo dos desperdícios tupiniquins das obras faraônicas para a Copa do Mundo e Olimpíadas ou a esbravejar diante da queda de braço entre o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional. Poesia que é bom, necas!... Aliás, por que pensar em estética estilística ou versificação, já que obra dever ser escancarada, livre, leve e solta para orgasmo coletivo e catarse alheia, fincados no âmago de cada declamação apoteótica ou apocalíptica, conforme a cosmologia ou o Big-Bang da explosão bíblica: “No princípio era o Verbo...”.   

Para fácil identificação, eis o perfil social deste indivíduo que se matriculou em sete cursos universitários, e, por ser autodidata anarquista e livre pensador, não se encontrou em nenhum percurso acadêmico; se aventurou em treze ofícios e, por ser alternativo e transgressor, não conseguiu se adaptar ao trabalho regular com horário e carteira assinada; casou-se quatorze vezes, divorciou-se, e mora com a mãe do poema em epígrafe, até se deparar com a alma gêmea de sua musa amada. E como a vida imita a arte, a venerável senhora lhe aconselharia: “– Vai ser poeta, meu filho, e vê se não enche o saco do bode velho do Dionísio!...”.      

*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco@uol.com.br